REPRODUÇÃO REPRODUÇÃO

Tucídides, Lord Byron e... o calor de Santos

... quanto mais o falante condena a cidade, mais vividamente a evoca, mais atraente ela se lhe torna
Marshall Berman

Existem várias formas de gostarmos de uma cidade sem que seja preciso nos dobrar a festejos e celebrações oficiais. Uma delas é apreciar textos poéticos e literários que ela inspirou. É o caso de Santos, cenário de poemas e romances escritos por grandes nomes da literatura mundial. Mas ainda não estou satisfeito, poderia cair facilmente na adulação fácil de aniversário, então, inspirado pela previsão do tempo para os próximos dias, proponho uma pequena coletânea de passagens que descrevem o calor de nossa cidade.

Lembro de uma anotação do historiador Carlo Ginzburg feito sobre Plutarco (46-120), biógrafo de nomes da Antiguidade que em um de seus texto elogiou a "vivacidade pictórica" das descrições de Tucídides, nascido quase 500 anos antes, autor da História da Guerra do Peloponeso.

Escreveu Plutarco: "Assim, com sua prosa, Tucídides se esforça sempre para obter essa eficácia expressiva, desejando ardentemente fazer do ouvinte um espectador e de tornar vivos para quem os lê os fatos emocionantes e perturbadores dos quais eram testemunhas oculares".

É essa "eficácia expressiva" ou "vivacidade pictórica" sobre o calor de Santos que quero destacar de alguns textos. Começo pelos poetas viajantes. Em 1924, o belga Blaise Cendrars vem ao Brasil para se encontrar com os modernistas de São Paulo e dá como seu primeira impressão de nosso país o poema Chegada a Santos, que termina com o verso "O sol é atordoante".

Quase 30 anos depois, em 1951, a norte-americana Elizabeth Bishop, homenageada deste ano na FLIP, vem ao Brasil, onde morararia por quase duas décadas e escreve um poema quase com o mesmo título, Chegada em Santos, no qual sugere que os selos se desgrudam dos cartões-postais "por causa do calor".

blog20201304548103.jpg

Pablo Neruda, em 1967, no seu Santos Revisitado (1927-1967), diz, beirando a ofensa, que a cidade cheirava "como uma axila do Brasil calorento".

Logo na primeira cena do romance Navios Iluminados (1937), de Ranulfo Prata, o protagonista José Severino de Jesus acaba de acordar em sua pensão em um chalé do Macuco, o bairro portuário. Há dois meses na cidade vindo do sertão da Bahia em busca de trabalho no cais, José Severino pensa na vida enquanto passa os olhos pelo quarto, o amigo Felício ainda dormindo, roupas penduradas em pregos nas paredes, o forro de tábuas finas empenadas e o calor: "O quarto, apesar de tão cedo, já estava quente. Novembro se acabava".

No capítulo 18, Prata, escritor sergipano que era médico da Santa Casa e da Beneficência Portuguesa (ele mesmo homenageado na Tarrafa Literária de 2018), descreve o trabalho de estivadores, entre eles José Severino, levando fardos de carne de um armazém-frigorífico para os porões do cargueiro Witell, que embarcaria para a Alemanha:

"No fim dessa mesma semana, foi trabalhar no armazém frigorífico. Cá fora um noroeste bravo, sapecando a pele, escaldando a cidade, e lá dentro uma temperatura de 30 graus abaixo de zero".

Mas não há - ou pelo menos, não conheço - descrição de nosso calor tão cheia de vivacidade pictórica como no romance A Carne (1888), de Júlio Ribeiro. Um pouco antes da metade da trama, Manuel Barbosa vem para Santos defender os interesses da fazenda de café da família por causa de problemas com uma casa comissária. Daqui, ele escreve para Lenita, jovem de quem seu pai é tutor após ter ficado orfã e por quem está apaixonado. A carta é datada de 22 de janeiro de 1887 e é exatamente assim que nos sentimos hoje, 30 de janeiro de 2020: "Eu me vejo em apuros, mas é para fazer o que vem a ser esta nesga do litoral em relação à climatologia; é para achar-lhe um termo de comparação.

Falam no Senegal: o Senegal é mais quente, valha a verdade, mas não é tão abafado. Lá respira-se fogo, mas respira-se. Aqui não se respira nem fogo, nem coisa nenhuma. O ar é pesado, oleoso; parece que lhe falta algum elemento. Isso quando não há o vento célebre que os nativos chamam noroeste: quando sopra, quando reina esse semoum africano, esse vendaval-peçonha, Santos é uma miniatura do inferno: imagine-se um tufão dentro de um forno.

Os dias são horríveis: se não há chuva, o que é raro, o sol queima, esbraseia a terra, a ponto de se poderem fitar ovos sobre as pedras das calçadas. Mas ainda há coisa mais horrível que os dias, são as noites. A atmosfera queda-se, morre. Olha-se para as flâmulas dos navios, imóveis; para os leques das palmeiras, imóveis. A gente a asfixiar no ar irrespirável e morto, parece-se com os mamutes que se encontram inteiros nos gelos da Sibéria, ou com esses insetos mumificados, há milhares de anos, na transparência dourada do âmbar amarelo. É uma situação aflita, desespera, tira a coragem, dá vontade de chorar, lembra os horrores da Treva de Byron."

blog20201304047619.jpg
ILUSTRAÇÃO: RAPHAEL MORONE

As Trevas, poema do britânico Lord Byron (1788-1820), é uma obra do romantismo. Foi traduzido por Castro Alves (1847-1971) e publicado em 1913 na versão ampliada de "Espumas flutuantes". É assim sua última estrofe:

"O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida,
Populosa tornou-se n'uma massa
Sem estações, sem árvores, sem erva,
Sem verdura, sem homens e sem vida,
Caos de morte, inanimada argila!

Calaram-se o oceano, o rio, os lagos!
Nada turbava a solidão profunda!
Os navios no mar apodreciam
Sem marujos! os mastros desabando
Dormiam sobre o abismo, sem que ao menos
Uma vaga na queda alevantassem.
Tinham morrido as vagas! e jaziam
As marés no seu túmulo... antes delas
A lua que as guiava era já morta!
No estagnado céu murchara o vento;
Esvaíram-se as nuvens. E nas trevas
Era só trevas o universo inteiro".

 

 

  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: quinta-feira, 30 jan 2020 08:41Atualizado em: quinta-feira, 30 jan 2020 09:52

Comentários (1)

Enviar Comentário

Iris Geiger

• 30/01/2020 11:26

Arquiteta e Urbanista Santista
Ótimo artigo, Atanes! Mas, sejamos justos: a brisa marinha é uma delícia e nem sempre estamos envoltos em um tufão no forno do inferno. ??

     
Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.