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Quinta de cinzas

As civilizações são finitas, e por isso sempre chega um momento na vida de todas elas em que o centro começa a se desagregar. O que as impede de se desintegrar não são suas legiões, mas a língua.

Joseph Brodsky

I

Libertada e vencida, essa é a Itália que surge em A pele (1949), de Curzio Malaparte (1898-1957), livro em que acompanhamos a chegada do exército dos Estados Unidos em Nápoles em 1º de outubro de 1943 e sua marcha em direção a Roma, parte da ofensiva dos Aliados que culminaria com a derrota dos nazistas dois anos depois.

Malaparte é um oficial do exército italiano veterano da Primeira Guerra (1914-1917), quando ainda adolescente, combateu alemães e por eles foi ferido com um lança-chamas. Conta Milan Kundera em A pele: um arquirromance, que, mais tarde, nos anos 30, após ingressar no partido fascista italiano, ele acaba preso “por atividades antifascistas”. Jornalista e intelectual, seu lugar era entre “artistas e escritores”. Devido à experiência militar, em 1940 é absolvido, reconvocado e enviado para o front russo, de onde escreve artigos considerados antialemães e antifascistas. Em poucos meses é novamente preso.

Esse duplo sentimento – livre e vencido, militar e antifascista – Malaparte nos mostra logo no início de A pele, quando o exército italiano é incorporado pelos Aliados:

“Caminhando ao lado do Coronel Hamilton, eu sentia-me ao mesmo tempo maravilhosamente ridículo no meu uniforme inglês. Os uniformes do Corpo Italiano da Libertação eram velhos uniformes ingleses cor de cáqui, cedidos pelo comando Britânico ao Marechal Badoglio, e novamente tingidos, talvez para tentar esconder as manchas e os buracos das balas, de verde escuro, cor de lagarto. Eram, de fato, fardas tiradas aos soldados britânicos tombados em El Alamein e em Tobruk. No meu casaco viam-se os buracos de três balas de metralhadora. [...] O nosso amor-próprio de soldados vencidos estava salvo: doravante combateríamos ao lado dos Aliados, para ganhar juntamente com eles a guerra deles depois de termos perdido a nossa, e por isso era natural que fôssemos vestidos com as fardas dos soldados abatidos por nós”.

Em seu ensaio, Kundera pondera que Malaparte é uma das primeiras vozes a perceber a “nova Europa”, vencida primeiramente pela “loucura de seu próprio Mal encarnado na Alemanha nazista” e, em seguida, “libertada e ocupada” pelas potências emergentes que tomam seu lugar, Estados Unidos e União Soviética: “a Europa que ontem ainda (tão naturalmente, tão inocentemente) considerava sua própria história, sua cultura, como um modelo para o mundo inteiro, percebeu sua pequenez”.

II
A pele é lido como uma sucessão de cenas cruéis, absurdas e grotescas que ocorrem durante a marcha em direção a Roma, bem como nas digressões e flashbacks do narrador. O mesmo ocorre em sua obra anterior, Kaputt, publicado em 1944, antes mesmo do fim do conflito, no qual narra episódios dos anos iniciais da guerra ocorridos nos territórios ocupados pela Alemanha testemunhados por ele devido à sua posição como oficial italiano. Mas engana-se quem espera de um ou de outro um livro-reportagem. Kundera argumenta que a “intenção estética” das duas obras é tão vasta – “forte”, “evidente” – que seu aspecto de testemunho fica em segundo plano.

Kundera traça um paralelo entre o italiano e José Lezama Lima (1910-1976). Assim como o cubano, Malaparte amava – e publicava traduções – os poetas e artistas surrealistas. E, ainda que os dois tenham em suas obras evitado a macaqueação, a influência do movimento os fez oferecer às Letras novas formas para o romance, já que não era possível voltar ao realismo naturalista do século XIX. Malaparte chegaria ao arquirromance, enquanto Lezama Lima, anos mais tarde, seria o pensador e criador do “real maravilhoso”, como lemos em obras como Paradiso, de 1966, uma das obras que iria alimentar o boom da literatura latino-americana e a idea de realismo fantástico. Na edição do livro que preparou para e editora espanhola Catedra, a irmã do autor, Eloísa Lezama Lima, conta algo sobre a transmutação de episódios familiares em literatura em Paradiso que, suspeito, cabe também a Malaparte: “a transformação de fatos históricos em mito”.

A matéria-prima de Kaputt e A Pele, afirma Kundera, é mais a “atmosfera” (o trecho acima sobre a reutilização das fardas é um bom exemplo) do que o “encadeamento casual das ações”. Kundera lembra de uma das cenas mais marcantes de Kaputt, quando, ao fugirem de um incêndio florestal ateado por forças soviéticas durante uma batalha no norte da Finlândia, centenas de cavalos buscam refúgio em um lago:

“Durante a noite desceu o vento do Norte. (O vento do Norte desce do mar de Murmansk, como um anjo, ululando, e a terra morre subitamente). O frio tornou-se tremendo. De súbito, com o seu característico som vibrante de vidro percutido, a água congelou-se. O mar, os lagos, os rios congelam-se de improviso, por causa do rompimento, que ocorre de um momento para o outro, do equilíbrio térmico. Até a onda marinha para no meio o ar, torna-se uma onda curva de gelo suspensa no vácuo.

No dia seguinte, quando as primeiras patrulhas de sissit, com os cabelos chamuscados, a cara negra de fumaça, caminhando cautelosamente sobre a cinza ainda quente através do bosque carbonizado, chegaram à margem do lago, horrível e maravilhoso espetáculo se lhes deparou. O lago era como uma imensa laje de mármore branco, em cima da qual pousavam centenas de cabeças de cavalos. Pareciam decepadas pelo corte seguro de um cutelo. Só as cabeças emergiam da crosta de gelo. Todas as cabeças estavam voltadas para a margem. Nos olhos arregalados ardia ainda a chama branca do terror”.

Talvez a epígrafe de hoje, do poeta Joseph Brodsky (1940-1996), Nobel de Literatura de 1986, explique a opção de Malaparte pela elaboração literária. Não se é repórter do fim de uma civilização apenas com fatos.

Estante
Curzio Malaparte. Kaputt. Tradução Mário e Celestino da Silva. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1963 (1ª edição 1944).

Curzio Malaparte. A Pele. Tradução Alexandre O’Neill. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1964 (1ª edição 1949).

Milan Kundera. A pele: um arquirromance. In: Um encontro: Ensaios. Tradução Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2013 (1ª edição 2009).

Joseph Brodsky. O som da maré. In: Menos que um: Ensaios. Tradução Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 (1ª edição 1986).

Três observações
1) São belíssimos os desenhos de Eugênio Hirsch para as capas das edições da Civilização Brasileira dos livros de Malaparte;



2) Os dois livros estão fora de catálogo e são achados apenas em sebo, mas quem quiser acompanhar o clima das duas obras pode contar com duas adaptações: Kaputt (2014), em quadrinhos, adaptado por Eloar Guazelli, e A Pele (1981), adaptação para o cinema de Liliana Cavani, com Marcello Mastroianni e Burt Lancaster. O filme está disponível na Video Paradiso, aqui de Santos;

3) Voltaremos a ouvir O som da maré de Brodsky na próxima semana.

 

 

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.