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O Carnaval é espelho

Em Não somos bandidos, o historiador Odair José Pereira nos conta a primeira década da Escola de Samba X-9. É um estudo de caso: uma agremiação carnavalesca de um bairro, o bairro de uma específica cidade com características próprias. Mas como todas, é uma cidade que faz parte de uma comunidade maior, a nação, o país, cujos contextos a afetam direta ou indiretamente, junto com o bairro e a comunidade.

Nada disso é automático, mais de 90 anos haviam já se passado desde as primeiras manifestações ligadas ao Carnaval em Santos até o carnaval de 1946, quando a X-9 sai da Rua Almirante Tamandaré em direção à avenida da praia, então Gonzaga, Avenida Ana Costa, Centro e volta ao bairro portuário do Macuco. Odair nos conta essa história. Ele falou sobre o livro, publicado pela editora Ateliê de Palavras em 2016, na terça-feira, dia 11, na primeira edição do projeto “Onde está a cabeça do escritor?”, encontro promovido pela editora entre autor e leitores que ocorreu na Cantina de Lucca.

O caminho que ele adota é o que muitos que fazem pesquisa chamam de micro-história, uma metodologia na qual o específico de cada situação histórica pode iluminar o todo: as mudanças na forma de brincar a festa de Momo refletem as alterações sociais e urbanas da própria cidade e do país. O Carnaval é espelho.

Como costuma passar por toda manifestação cultural, o reflexo desse espelho é mais ou menos distorcido (lembro aqui dos espelhos deformantes do Monte Serrat). Isso ocorre de forma mediada por relações de força em um, na expressão do autor, “jogo de conciliação” – reitero que negociação aqui não é negociata, mas sim o conjunto de atos de adaptação, imposição ou resolução de conflitos entre sambistas, população, empresas e governos locais e nacionais.

E esses conflitos deixam rastros nos arquivos da cidade, como uma sentença do procurador da vila de Santos em 1850 que multa Nicolau Vergueiros em 6$000 por brincar o Entrudo nos dias de Carnaval, uma “contravenção prevista no Código de Posturas Municipais de 1847”. O Entrudo ainda está aí, na forma quase inocente das bambuchas de água e serpentinas de espuma, mas à época consistia em encher bolas de cera, chamadas laranjinhas, com água de cheiro, muitas vezes “perfumada à urina, fezes e maus odores”, e tacá-las nas pessoas. Nicolau e seu grupo, formado por mais cinco homens, todos mascarados, foram reconhecidos atirando laranjinhas nos passantes da Travessa da Alfândega, junto aos trapiches que formavam o porto de então.

Sentenças posteriores confirmam que a proibição continuou a ser ignorada. Porém, ao longo do primeiro capítulo, Odair nos vai revelando como ao longo da segunda metade do Século XIX, o Entrudo vai perdendo espaço para guerras de confetes, corsos e o carnaval dos salões e clubes e que isso ocorre ao mesmo tempo em que a construção do cais de concreto e o esforço de erradicação das epidemias modificam o mapa da cidade, remodelando seus espaços de convivência. No meio disso tudo, e como pano de fundo, a luta abolicionista e republicana.

Tais substitutos do Entrudo, porém, espalham-se de forma desigual sobre esse mapa modificado. Bailes, corsos e desfiles concentram-se no Centro e Gonzaga – daí o percurso inaugural da X-9 em direção às áreas mais nobres da cidade – enquanto as guerras de confete eram mais comuns nos bairros operários. De adaptação em adaptação, os grupos vão crescendo e transformando-se em agremiações e, posteriormente, escolas. A própria X-9 começa em 1944, dois anos antes do primeiro desfile, quando um grupo formado na Almirante Tamandaré foi batucar no Santos Dumont F. C.

Entre a bibliografia, Não somos bandidos cita X-9: Escola Pioneira, de J. Muniz Jr, de 1978. O autor, com dez anos de atuação como relações públicas da agremiação entre 1960 e 1970, faz uma história institucional: contabiliza os títulos até o ano de publicação; dá nomes a fundadores e figuras ilustres, registra sambas e compositores (meu exemplar de X-9: Escola Pioneira informa que Muniz é autor também de Panorama do samba santista e Do batuque à Escola de Samba, ambos de 1976, e Sambistas imortais, de 1978, três obras que nunca encontrei em sebo ou acervo). Sem desprezar o valor dessa história por dentro, talvez um pouco mais memória que história, Odair faz uma trabalho de História Cultural, ampliando o conhecimento sobre nossa cidade.

EPÍLOGO
Falando em memórias, retiro aqui da estante dois livros de autoras que viveram esses tempos como crianças ou adolescentes. Em O Macuco do meu tempo, de 2006, Maria Alice Fernandes Cardoso, nascida em 1934 e criada no bairro, lembra-se da expectativa dos moradores locais quando, em 1962, ocorre a primeira Batalha de Confete “organizada pela comissão carnavalesca da cidade” com chegada do Rei Momo, outro indício da institucionalização do carnaval, enquanto anos antes os grupos reuniam-se espontaneamente na esquina da Campos Melo com Lowndes, local conhecido, revela Odair, como o “Brooklyn Santista”.

Maria Alice reaviva a ocasião: “No dia do grande acontecimento, dede cedo, o barulho do reco-reco e apitos se espalhava pelas ruas. Caminhões enfeitados com folhagens, bambus e palmeiras eram preparados para receber o Rei Momo, e o comentário era só um: - Hoje tem batalha de confete! Todos queriam brincar. O Macuco estava em festa”.

Já das transmissões de rádio dos estúdios e programas musicais da Rádio Clube e da Rádio Atlântica, podemos conhecer o comentário de Lygia Lolo Silva de Carvalho, que costumava participar de alguns deles. Em um dos textos memorialísticos de Aquele tempo passou: Fragmentos da memória. Santos nas décadas de 40 e 50, de 2014, ela se lembra das “divertidas” marchinhas de carnaval e dos grandes nomes na música nacional nos clubes e casas de espetáculos da cidade naquelas décadas do século XX, período formativo também para as futuras escolas de samba de Santos devido ao contato com o samba do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, por meio das transmissões da Rádio Nacional. E aí damos mais uma volta na relação entre local e nacional.

O que os espelhos da folia de Momo nos mostram hoje sobre Santos? O que nos mostram de uma cidade que vem há anos antecipando os desfiles por medida administrativa (de novo, um rastro do avanço do institucional sobre o tradicional)? O que nos mostram de uma cidade que em 2020 negocia restrições à festa por questões (justificáveis, não é?) de segurança?

Em sua incessante adaptação aos tempos, quem sabe o Entrudo não assuma novas formas?

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: quinta-feira, 13 fev 2020 12:28
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Preferiria não.

Basta que um único homem seja irracional para que os outros o sejam e também todo o universo.
Melville imaginado por Borges

I

Talvez ninguém conheça exatamente todo o alcance da frase "Preferiria não fazer", o bordão de Bartleby no conto de Herman Melville (1819-1891), publicado em 1856 em Londres e Nova York. Recém empregado em um escritório, Bartleby insistentemente recusa tarefas, ele só quer um canto. Conheço a tradução acima da frase original “I would prefer not to” feita por Cássia Zanon para a editora LP&M.; "Preferiria não", mais ríspido, é a versão usada na encenação de Denise Stoklos; e fuçando na rede, surpreendo-me e simpatizo com "Acho melhor não", de Irene Hirsch, editada pela Ubu. Parece-me soar mais como se fala. "Acho melhor não" são palavras de hoje para essa recusa expressa no livro.

Jorge Luis Borges (1899-1986), em seu estilo límpido para ideias abstratas ou filosóficas, sugere que Kafka (1883-1924) e seus labirintos da burocracia (penso em O processo, 1925) projetam uma "luz ulterior" sobre o conto. O autor tcheco de expressão alemã, diz Borges, "aprofundaria " o gênero que o norte-americano criara em Bartleby - O Escrivão: "o das fantasias da conduta e do sentimento".

II
Passando de argentino para chileno, Roberto Bolaño (1953-2003) afirma que Bartleby é o "exilado absoluto" por preferir não se ir. E é sobre um conto de Bolaño que quero falar, Henry Simon Leprince, de 1997.

Leprince é um nome "todo o contrário" do que sugere: "da classe média baixa, carece de dinheiro, de uma boa educação, de amizades convenientes". E claro, é um escritor fracassado, seus poemas recebem julgamentos ruins feitos por poetas ruins e nem são lidos pelos bons poetas. As editoras parecem odiá-lo.

Essa é a situação literária de Leprince em 1940, quando a França é ocupada pelo nazismo. Da diversidade anterior de escolas literárias francesas, os escritores passam a se agrupar em dois grupos antagônicos: os que pensam em resistir - inclusive os "por delicadeza" - e os que pensam em colaborar, "subdivididos, eles mesmos, em múltiplas seções, todas sob o influxo gravitacional dos sete pecados capitais". Enquanto esse grupo vai assumindo editoras e a direção de revistas, Leprince compreende que é com eles que sempre havia caminhado pelo "mesmo território". Após um tempo, ele é convidado a publicar seus poemas e a escrever para essas revistas, oferecem-lhe um cargo de direção no jornal para o qual trabalha.

Mas ele diz não. Bolaño nos apresenta o "preferiria não" de Leprince dá de forma sutil, ao final de um parágrafo: "Nessa manhã [a do convite] entende por fim algumas coisas. Nunca até então havia tido noção de seu papel tão baixo na pirâmide da literatura. Nunca até então sentiu-se tão importante. Após uma noite de reflexão e de exaltação, rejeita a oferta".

Como cada ato, ou recusa, tem suas consequências, Leprince acaba por aproximar-me a pessoas ligadas à resistência e passa a realizar missões "delicadas", porém sem muita importância: o deslocamento de escritores, muitos entre os poetas ruins que consideravam ruins seus poemas e aqueles que o ignoravam.

"Sua presença provoca uma rejeição intraduzível, inclassificável. Sabem que está a seu lado, mas no fundo se negam com todas suas forças a aceitá-lo. Percebem, talvez, que Leprince esteve durante muitos anos no purgatório das publicações pobres ou canalhas e sabem que dali não se salva pessoa ou bicho ou que somente salvam-se aqueles que são muito fortes e brilhantes e bestiais".

E mais à frente: "Ninguem se molesta a saber o que escreve o escritor que lhes salvou a vida". Ou ainda: "Em uma noite protege um poeta surrealista perseguido pela Gestapo e que terminará seus dias (não por culpa de Leprince) em um campo de concentração na Alemanha, o qual se despede sem lhe dar sequer um obrigado".

Ao contrário da recusa difusa de Bartleby, Bolaño dá um novo rumo ao gênero das fantasias de condutas: Leprince rejeita algo concreto e sabe que não haverá recompensa. Esse é um dos momentos em que vemos uma ideia-força de Bolaño: o valor; não aquele que se confunde com preço, mas valor na acepção em espanhol que siginifica também "coragem" (ser valente é agir com valor).

III
O conto faz parte do livro Chamadas Telefônicas, publicado no Brasil em 2012 pela Companhia das Letras, 15 anos após o lançamento na Espanha pela Anagrama.

É essa demonstração de valor que separa Leprince das personagens de Bolaño reunidas em A literatura nazista em América, sua obra anterior, de 1996 (publicada no Brasil somente em 2019), uma série de perfis inventados de escritores e escritoras do norte ao sul do continente americano, reacionários e conservadores, alguns criminosos, outros soldados. Há inclusive um filósofo brasileiro que escreve refutações aos iluministas. Eles não disseram "preferiria não".

Esse livro talvez seja o mais agudo na tensa relação entre ficção e história que costura a obra do chileno. Um caso emblemático é o perfil de Carlos Ramírez Hoffman, o Infame, poeta e piloto da aeronáutica chilena que comete atrocidades contra outros artistas (principalmente mulheres), registra suas matanças em fotografias e as expõe como se fosse arte de vanguarda (essa história é desenvolvida posteriormente na forma de romance em Estrela Distante).Outro caso é o do mineiro Amado Couto, autor de romances policiais que entra no Esquadrão da Morte e participa de sequestros e torturas, sem parar de pensar no que a literatura brasileira precisava.

Couto faz parte de uma série de personagens do livro movidos mais por ressentimento do que ideologia, ou ressentimento e ideologia em partes iguais (Leprince é também um ressentido, como são ressentidos os bons poetas salvos por ele). Entra no Esquadrão da Morte após seu livro de contos não ter sido aceito por editora nenhuma. Admirador e invejoso de Rubem Fonseca, chega a planejar seu sequestro:

“Pensou um dia, enquanto esperava com o carro em um descampado, que não seria má ideia sequestrar e fazer alguma coisa com o Fonseca. Disse isso para os chefes, e eles escutaram. Mas a ideia não foi levada a cabo.”

É assim também com o guatemalteco Gustavo Borda, baixinho, moreno, de cabelo escuro e ralo que em suas ficções científicas cria protagonistas altos, loiros, de olhos azuis que formam a tripulação de naves espaciais que recebem nomes tais como Nova Berlim, Nova Hamburgo, Nova Frankfurt. Desprezado e humilhado por toda a vida, tanto no país Natal como em Los Angeles, para onde se muda, assim responde a escolha por personagens alemãs: “Me fizeram tantas cachorradas, me cuspiram tanto, me enganaram tantas vezes que a única maneira de seguir vivendo e seguir escrevendo era me trasladar em espírito a um lugar ideal... À minha maneira sou como uma mulher no corpo de um homem...”

Outro caso é o do haitiano Max Mirebalais, plagiador, que cria heterônimos plagiadores, cada um em um estilo próprio. Um desses heterônimos é metade haitiano, metade alemão, Max Von Hauptman. “Ser um poeta nazista e não renunciar a certo tipo de negritude pareceu entusiasmar Mirebalais”.

Agora, um perfil curto:
“Otto Haushofer, Berlim, 1871-Berlim, 1945. Filósofo nazista. Padrinho de Luz Mendiluce e pai de várias teorias sem cabimento: a Terra oca, o Universo Sólido, as civilizações primigênias, a tribo ariana interplanetária. Suicidou-se depois de ter sido violentado por três soldados uzbeques bêbados".

Otto está inserido na seção do livro chamada Epílogo para monstros, um catálogo dedicado a personagens secundárias, editoras e publicações ligadas à ultradireita do continente. Ele é um coadjuvante na biografia de Luz Mendiluce, filha de Edelmira Mendiluce e irmã de Juan Mendiluce Thompson, a família argentina que compõe a primeira seção do livro, Os Mendiluce.

Luz nasce em Berlim em 1928, durante viagem da família. Seu batizado reúne “a nata da intelectualidade argentina e alemã” durante uma cerimônia de três dias, conta Bolaño no perfil da mãe. Ainda um bebê de colo, conhece Hitler:

“Em 1929, enquanto o crack mundial obriga Sebastián Mendiluce [o marido de Edelmira] a retornar a Argentina, Edelmira e seus filhos são apresentados a Adolf Hitler, que pegará a pequena Luz no colo e dirá: “É sem dúvida uma menina maravilhosa”. Fotos são feitas. O futuro Führer do Reich causa na poetisa argentina uma grande impressão.”

A foto com Hitler, emoldurada em prata e presidindo o salão de sua casa, lhe “acompanhou toda sua vida”, até 1976, quando morre em Buenos Aires.

O batizado de Luz por um filósofo nazista – LUZ, olha só o nome! – revela, e outros perfis reforçam essa ideia, toda uma genealogia entre o nazismo alemão e o autoritarismo violento da América Latina. Não apenas em nossas ditaduras, mas também em parte do pensamento de artistas, intelectuais e também entre a gente.

Assim pode-se ler também o romance póstumo 2666, de 2003, em que tal relação se dá em outro nível, no qual intelectuais europeus especialistas em um autor alemão recluso conhecem o horror latino-americano na forma do assassinato de centenas de mulheres em Santa Teresa, no Deserto de Sonora, durante uma viagem ao México. A violência americana como nosso próprio mal.

IV
Em uma entrevista, Bolaño responde sobre o que o deixa aborrecido: "O discurso vazio da esquerda. O discurso vazio da direita já dou por certo". Essa frase, ela mesmo pronunciada em uma situação no mínimo contraditória - pois foi dada para e revista Playboy em um encontro conduzido por uma jornalista, Mónica Maristain - ilumina também um tipo de personagem que vem se tornando cada vez mais alvo de críticas que aparece no Literatura nazista e posteriormente em outras de suas histórias: o esquerdomacho.

Em outro dos perfis do livro, conhecemos a mexicana Irma Carrasco, católica e monarquista. Ela acredita que o México deve voltar a fazer parte da coroa espanhola. Casa-se em 1935 com Gabino Barreda, "estalinista semiclandestino e don Juan", considerado um "arquiteto brilhante, idealista, com grandes projetos para as novas cidades do continente". Lindo, né? Não. Após alguns meses, passa a bater em Irma diariamente: "Barreda costuma depreciá-la publicamente, a ela e a sua família, a quem chama de 'carolas filhos de uma quenga' ou 'carne podre de paredão' na frente de amigos ou desconhecidos. Recebe a "mais brutal" das surras em 1937,em Madri, durante o bombardeio da cidade pela aviação franquista. O abuso segue por décadas, até quase sua morte, e cito, para fechar, o dia em 1947 em que apanha na frente de amigos durante um jantar ao defender a "honradez e as conquistas do regime franquista".

Epílogo
Escrevi muito hoje sobre autores homens, ainda que também sobre a violência que cometem. Mas as traduções aqui citadas vieram ao português por causa de uma encenadora e duas tradutoras. Também a citação de Borges em português é a da versão de Josely Vianna Baptista (já os trechos do chileno são traduções feitas a partir dos originais em espanhol aqui da estante). E para uma história da tradução no Brasil, principalmente de obras de língua inglesa sugiro as postagens e comentários de Denise Bottmann, ela mesma tradutora de nomes como Virginia Woolf, Peter Burke, Terry Eagleton e Katherine Mansfield, entre outros.

Mesmo que eu "prefira não" escrever sobre homens mais do que mulheres, minha Estante acaba ainda por reproduzir as relações de força da sociedade. Cabe a mim estar atento para modificar essa e outras diferenças, diferenças que serão reduzidas não só por um equilíbrio numérico, mas também pelo destaque ao peso e influência de autoras. Por isso, cito Beatriz Sarlo, crítica e ensaísta argentina, fundamental para minha leitura de Bolaño e sobre como venho tratando as relações entre História e Literatura. É dela a seguinte frase que guia meus estudos:

"A literatura, é claro, não dissolve todos os problemas colocados [pela reflexão sobre a sociedade], nem pode explicá-los, mas nela um narrador sempre pensa de fora da experiência, como se os humanos pudessem se apoderar do pesadelo, e não apenas sofrê-lo".

Bônus
A poesia de Bolaño ainda não foi publicada em livro em português, ainda que se possa encontrar alguma coisa na rede. Em homenagem ao valor e à coragem, trago aqui uma tradução de:

MINHA CARREIRA LITERÁRIA

Rejeições de Anagrama, Grijalbo, Planeta, com toda a certeza
também de Alfaguara, Mondadori. Um não de Muchnik,
Seix Barral, Destino... Todas as editoras... Todos os leitores...
Todos os gerentes de vendas...

Sob a ponte, enquanto chove, uma oportunidade de ouro
para ver a mim mesmo:
como uma serpente no Polo Norte, mas escrevendo.
Escrevendo poesia no país dos imbecis.
Escrevendo com meu filho nos joelhos.
Escrevendo até que cai a noite
com um estrondo dos mil demônios.

Os demônios que hão de me levar para o inferno,
mas escrevendo.

 

 

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: quinta-feira, 06 fev 2020 15:47Atualizado em: quinta-feira, 06 fev 2020 15:48
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Tucídides, Lord Byron e... o calor de Santos

... quanto mais o falante condena a cidade, mais vividamente a evoca, mais atraente ela se lhe torna
Marshall Berman

Existem várias formas de gostarmos de uma cidade sem que seja preciso nos dobrar a festejos e celebrações oficiais. Uma delas é apreciar textos poéticos e literários que ela inspirou. É o caso de Santos, cenário de poemas e romances escritos por grandes nomes da literatura mundial. Mas ainda não estou satisfeito, poderia cair facilmente na adulação fácil de aniversário, então, inspirado pela previsão do tempo para os próximos dias, proponho uma pequena coletânea de passagens que descrevem o calor de nossa cidade.

Lembro de uma anotação do historiador Carlo Ginzburg feito sobre Plutarco (46-120), biógrafo de nomes da Antiguidade que em um de seus texto elogiou a "vivacidade pictórica" das descrições de Tucídides, nascido quase 500 anos antes, autor da História da Guerra do Peloponeso.

Escreveu Plutarco: "Assim, com sua prosa, Tucídides se esforça sempre para obter essa eficácia expressiva, desejando ardentemente fazer do ouvinte um espectador e de tornar vivos para quem os lê os fatos emocionantes e perturbadores dos quais eram testemunhas oculares".

É essa "eficácia expressiva" ou "vivacidade pictórica" sobre o calor de Santos que quero destacar de alguns textos. Começo pelos poetas viajantes. Em 1924, o belga Blaise Cendrars vem ao Brasil para se encontrar com os modernistas de São Paulo e dá como seu primeira impressão de nosso país o poema Chegada a Santos, que termina com o verso "O sol é atordoante".

Quase 30 anos depois, em 1951, a norte-americana Elizabeth Bishop, homenageada deste ano na FLIP, vem ao Brasil, onde morararia por quase duas décadas e escreve um poema quase com o mesmo título, Chegada em Santos, no qual sugere que os selos se desgrudam dos cartões-postais "por causa do calor".

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Pablo Neruda, em 1967, no seu Santos Revisitado (1927-1967), diz, beirando a ofensa, que a cidade cheirava "como uma axila do Brasil calorento".

Logo na primeira cena do romance Navios Iluminados (1937), de Ranulfo Prata, o protagonista José Severino de Jesus acaba de acordar em sua pensão em um chalé do Macuco, o bairro portuário. Há dois meses na cidade vindo do sertão da Bahia em busca de trabalho no cais, José Severino pensa na vida enquanto passa os olhos pelo quarto, o amigo Felício ainda dormindo, roupas penduradas em pregos nas paredes, o forro de tábuas finas empenadas e o calor: "O quarto, apesar de tão cedo, já estava quente. Novembro se acabava".

No capítulo 18, Prata, escritor sergipano que era médico da Santa Casa e da Beneficência Portuguesa (ele mesmo homenageado na Tarrafa Literária de 2018), descreve o trabalho de estivadores, entre eles José Severino, levando fardos de carne de um armazém-frigorífico para os porões do cargueiro Witell, que embarcaria para a Alemanha:

"No fim dessa mesma semana, foi trabalhar no armazém frigorífico. Cá fora um noroeste bravo, sapecando a pele, escaldando a cidade, e lá dentro uma temperatura de 30 graus abaixo de zero".

Mas não há - ou pelo menos, não conheço - descrição de nosso calor tão cheia de vivacidade pictórica como no romance A Carne (1888), de Júlio Ribeiro. Um pouco antes da metade da trama, Manuel Barbosa vem para Santos defender os interesses da fazenda de café da família por causa de problemas com uma casa comissária. Daqui, ele escreve para Lenita, jovem de quem seu pai é tutor após ter ficado orfã e por quem está apaixonado. A carta é datada de 22 de janeiro de 1887 e é exatamente assim que nos sentimos hoje, 30 de janeiro de 2020: "Eu me vejo em apuros, mas é para fazer o que vem a ser esta nesga do litoral em relação à climatologia; é para achar-lhe um termo de comparação.

Falam no Senegal: o Senegal é mais quente, valha a verdade, mas não é tão abafado. Lá respira-se fogo, mas respira-se. Aqui não se respira nem fogo, nem coisa nenhuma. O ar é pesado, oleoso; parece que lhe falta algum elemento. Isso quando não há o vento célebre que os nativos chamam noroeste: quando sopra, quando reina esse semoum africano, esse vendaval-peçonha, Santos é uma miniatura do inferno: imagine-se um tufão dentro de um forno.

Os dias são horríveis: se não há chuva, o que é raro, o sol queima, esbraseia a terra, a ponto de se poderem fitar ovos sobre as pedras das calçadas. Mas ainda há coisa mais horrível que os dias, são as noites. A atmosfera queda-se, morre. Olha-se para as flâmulas dos navios, imóveis; para os leques das palmeiras, imóveis. A gente a asfixiar no ar irrespirável e morto, parece-se com os mamutes que se encontram inteiros nos gelos da Sibéria, ou com esses insetos mumificados, há milhares de anos, na transparência dourada do âmbar amarelo. É uma situação aflita, desespera, tira a coragem, dá vontade de chorar, lembra os horrores da Treva de Byron."

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ILUSTRAÇÃO: RAPHAEL MORONE

As Trevas, poema do britânico Lord Byron (1788-1820), é uma obra do romantismo. Foi traduzido por Castro Alves (1847-1971) e publicado em 1913 na versão ampliada de "Espumas flutuantes". É assim sua última estrofe:

"O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida,
Populosa tornou-se n'uma massa
Sem estações, sem árvores, sem erva,
Sem verdura, sem homens e sem vida,
Caos de morte, inanimada argila!

Calaram-se o oceano, o rio, os lagos!
Nada turbava a solidão profunda!
Os navios no mar apodreciam
Sem marujos! os mastros desabando
Dormiam sobre o abismo, sem que ao menos
Uma vaga na queda alevantassem.
Tinham morrido as vagas! e jaziam
As marés no seu túmulo... antes delas
A lua que as guiava era já morta!
No estagnado céu murchara o vento;
Esvaíram-se as nuvens. E nas trevas
Era só trevas o universo inteiro".

 

 

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: quinta-feira, 30 jan 2020 08:41Atualizado em: quinta-feira, 30 jan 2020 09:52
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A aventura de ler

Escrevia a primeira versão desse texto de estreia da Estante do Atanes em sua nova casa movido por gosto e empolgação de voltar a colaborar para a imprensa tratando de livros e literatura. Os parágrafos iam fluindo até que fui à cozinha preparar uma refeição. Durante a comida, a luz acaba e percebo imadiatamente que escrevia, escrevia e não havia salvado o arquivo. Religo o computador e nenhum traço do texto. Dessa desventura tão comum por qual tantos e tantas já passamos, fico com o consolo que este agora já é o segundo texto (acabei de salvá-lo) que preparo para o blog, que será atualizado às quintas-feiras.

Quem já correu os olhos por meus escritos irá reconhecer os temas de sempre, ainda que em uma nova volta da espiral: os poemas, ficções e relatos sobre o porto e a cidade de Santos, traduções de poesia em espanhol e um olhar para a literatura latino-americana como um espelho de nossas sociedades, além de outras preferências e encontros. Assunto é também essa ideia de poesia e ficção como espelho, que busco tratar como aqueles espelhos do Cassino do Monte Serrat, que mais distorcem do que refletem com exatidão, pois a verdade dos textos ficcionais não está no que dizem sobre o real. Está, e isto varia de obra para obra, em um lugar para o qual esses textos nos levam e de onde podemos fazer perguntas e levantar questões.

Talvez seja uma temeridade anunciar isto no primeiro (ou segundo) texto, mas não escrevo bem, isto é, me explico: minhas orações são repletas de frases adversativas, que vão condicionando, contrapondo, desdizendo ou mesmo reafirmando o antes dito de outro modo. Parágrafos, travessões, pontos e vírgulas, dois pontos, todos os sinais mobilizados em função de pensar a arte literária. Se tenho algum projeto, é o de fugir dos chavões e das afirmações petrificadas. Mais que matéria-prima para "belos" textos, os livros que passarem pela Estante do Atanes serão usados como um machado para quebrar o gelo do lugar comum.

Isso não quer dizer que os textos serão difíceis, pelo menos não é minha pretensão, mas enfrentarei assuntos difíceis. Talvez erre de tom em algum momento, mas nunca tratarei leitores e leitoras como incapazes ou sem interesse de acompanhar questões teóricas sobre Literatura ou sobre como funcionam os efeitos da ficção. Caberá a mim achar o modo adequado. O simples caminha ao lado do complicado e às vezes se interpenetram.

Anoto isso tendo na cabeça alguns exemplos de clássicos do século XX: por um lado, a escrita límpida e de textos curtos de Jorge Luis Borges, de uma clareza tal que chega a disfarçar os jogos de lógica e complexas ideias filosóficas levantadas pelo autor argentino; por outro, a técnica do fluxo de consciência adotada por James Joyce e Virginia Woolf (cada qual de sua maneira e parece que a inglesa não curtia muito o modo como o irlandês resolvia os mesmos problemas sobre os quais ela se debruçava).

Em suas obras mais ambiciosas escrevem os dois de forma não linear, desconexa, com múltiplas perspectivas, buscando mimetizar como os pensamentos acontecem na mente das personagens, saltando de uma ideia ou imagem para outra como ocorre na realidade de nossas mentes todos os dias de forma natural há milênios, mas que tornou-se um desafio para escritores e escritoras especialmente na primeira metade do século XX, talvez por causa da psicanálise, então ainda bem recente, talvez por causa do esgotamento do formato realista do romance do século XIX, ou provavelmente por causa de ambos.

Assim, dizer que Joyce é chato ou leitura para iniciados, como é costume, diz mais sobre as limitações de quem faz tal afirmação do que qualquer outra coisa. Ele é um autor respondendo às questões de seu tempo. E digo isso deixando claro que ainda não terminei o "Ulysses", tentei já duas vezes e apanhei bastante, umas 400 e tantas páginas em cada tentativa, e provavelmente haverá uma terceira, nunca por obrigação, mas pelo gosto de aventura. De Virginia Woolf, estou lendo o "Passeio ao Farol" e ando tristíssimo pelo destino de uma das personagens e o sentimento se dá justamente devido à maneira em que a autora elabora o texto.

Nesse país em que se afirma que livros didáticos são amontoados de palavras; nesse país em que já há algum tempo acadêmico é sinônimo de chato (muitas vezes de forma merecida); nesse país em que universitário é qualitativo de música de balada; enfim, é nesse país, aqui desde minha estante, que faço um convite e um desafio: desconfiem das afirmações do senso comum (que costuma divergir do bom senso) sobre livros. Ler é um gesto de coragem, é embarcar - para fecharmos com uma metáfora portuária - em uma aventura munidos apenas dos remos e velas de nossas mentes e corações.

E não esqueçam do Machado!


 

 

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: segunda-feira, 27 jan 2020 08:21Atualizado em: segunda-feira, 27 jan 2020 09:44
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Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.