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O Carnaval é espelho

Em Não somos bandidos, o historiador Odair José Pereira nos conta a primeira década da Escola de Samba X-9. É um estudo de caso: uma agremiação carnavalesca de um bairro, o bairro de uma específica cidade com características próprias. Mas como todas, é uma cidade que faz parte de uma comunidade maior, a nação, o país, cujos contextos a afetam direta ou indiretamente, junto com o bairro e a comunidade.

Nada disso é automático, mais de 90 anos haviam já se passado desde as primeiras manifestações ligadas ao Carnaval em Santos até o carnaval de 1946, quando a X-9 sai da Rua Almirante Tamandaré em direção à avenida da praia, então Gonzaga, Avenida Ana Costa, Centro e volta ao bairro portuário do Macuco. Odair nos conta essa história. Ele falou sobre o livro, publicado pela editora Ateliê de Palavras em 2016, na terça-feira, dia 11, na primeira edição do projeto “Onde está a cabeça do escritor?”, encontro promovido pela editora entre autor e leitores que ocorreu na Cantina de Lucca.

O caminho que ele adota é o que muitos que fazem pesquisa chamam de micro-história, uma metodologia na qual o específico de cada situação histórica pode iluminar o todo: as mudanças na forma de brincar a festa de Momo refletem as alterações sociais e urbanas da própria cidade e do país. O Carnaval é espelho.

Como costuma passar por toda manifestação cultural, o reflexo desse espelho é mais ou menos distorcido (lembro aqui dos espelhos deformantes do Monte Serrat). Isso ocorre de forma mediada por relações de força em um, na expressão do autor, “jogo de conciliação” – reitero que negociação aqui não é negociata, mas sim o conjunto de atos de adaptação, imposição ou resolução de conflitos entre sambistas, população, empresas e governos locais e nacionais.

E esses conflitos deixam rastros nos arquivos da cidade, como uma sentença do procurador da vila de Santos em 1850 que multa Nicolau Vergueiros em 6$000 por brincar o Entrudo nos dias de Carnaval, uma “contravenção prevista no Código de Posturas Municipais de 1847”. O Entrudo ainda está aí, na forma quase inocente das bambuchas de água e serpentinas de espuma, mas à época consistia em encher bolas de cera, chamadas laranjinhas, com água de cheiro, muitas vezes “perfumada à urina, fezes e maus odores”, e tacá-las nas pessoas. Nicolau e seu grupo, formado por mais cinco homens, todos mascarados, foram reconhecidos atirando laranjinhas nos passantes da Travessa da Alfândega, junto aos trapiches que formavam o porto de então.

Sentenças posteriores confirmam que a proibição continuou a ser ignorada. Porém, ao longo do primeiro capítulo, Odair nos vai revelando como ao longo da segunda metade do Século XIX, o Entrudo vai perdendo espaço para guerras de confetes, corsos e o carnaval dos salões e clubes e que isso ocorre ao mesmo tempo em que a construção do cais de concreto e o esforço de erradicação das epidemias modificam o mapa da cidade, remodelando seus espaços de convivência. No meio disso tudo, e como pano de fundo, a luta abolicionista e republicana.

Tais substitutos do Entrudo, porém, espalham-se de forma desigual sobre esse mapa modificado. Bailes, corsos e desfiles concentram-se no Centro e Gonzaga – daí o percurso inaugural da X-9 em direção às áreas mais nobres da cidade – enquanto as guerras de confete eram mais comuns nos bairros operários. De adaptação em adaptação, os grupos vão crescendo e transformando-se em agremiações e, posteriormente, escolas. A própria X-9 começa em 1944, dois anos antes do primeiro desfile, quando um grupo formado na Almirante Tamandaré foi batucar no Santos Dumont F. C.

Entre a bibliografia, Não somos bandidos cita X-9: Escola Pioneira, de J. Muniz Jr, de 1978. O autor, com dez anos de atuação como relações públicas da agremiação entre 1960 e 1970, faz uma história institucional: contabiliza os títulos até o ano de publicação; dá nomes a fundadores e figuras ilustres, registra sambas e compositores (meu exemplar de X-9: Escola Pioneira informa que Muniz é autor também de Panorama do samba santista e Do batuque à Escola de Samba, ambos de 1976, e Sambistas imortais, de 1978, três obras que nunca encontrei em sebo ou acervo). Sem desprezar o valor dessa história por dentro, talvez um pouco mais memória que história, Odair faz uma trabalho de História Cultural, ampliando o conhecimento sobre nossa cidade.

EPÍLOGO
Falando em memórias, retiro aqui da estante dois livros de autoras que viveram esses tempos como crianças ou adolescentes. Em O Macuco do meu tempo, de 2006, Maria Alice Fernandes Cardoso, nascida em 1934 e criada no bairro, lembra-se da expectativa dos moradores locais quando, em 1962, ocorre a primeira Batalha de Confete “organizada pela comissão carnavalesca da cidade” com chegada do Rei Momo, outro indício da institucionalização do carnaval, enquanto anos antes os grupos reuniam-se espontaneamente na esquina da Campos Melo com Lowndes, local conhecido, revela Odair, como o “Brooklyn Santista”.

Maria Alice reaviva a ocasião: “No dia do grande acontecimento, dede cedo, o barulho do reco-reco e apitos se espalhava pelas ruas. Caminhões enfeitados com folhagens, bambus e palmeiras eram preparados para receber o Rei Momo, e o comentário era só um: - Hoje tem batalha de confete! Todos queriam brincar. O Macuco estava em festa”.

Já das transmissões de rádio dos estúdios e programas musicais da Rádio Clube e da Rádio Atlântica, podemos conhecer o comentário de Lygia Lolo Silva de Carvalho, que costumava participar de alguns deles. Em um dos textos memorialísticos de Aquele tempo passou: Fragmentos da memória. Santos nas décadas de 40 e 50, de 2014, ela se lembra das “divertidas” marchinhas de carnaval e dos grandes nomes na música nacional nos clubes e casas de espetáculos da cidade naquelas décadas do século XX, período formativo também para as futuras escolas de samba de Santos devido ao contato com o samba do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, por meio das transmissões da Rádio Nacional. E aí damos mais uma volta na relação entre local e nacional.

O que os espelhos da folia de Momo nos mostram hoje sobre Santos? O que nos mostram de uma cidade que vem há anos antecipando os desfiles por medida administrativa (de novo, um rastro do avanço do institucional sobre o tradicional)? O que nos mostram de uma cidade que em 2020 negocia restrições à festa por questões (justificáveis, não é?) de segurança?

Em sua incessante adaptação aos tempos, quem sabe o Entrudo não assuma novas formas?

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: quinta-feira, 13 fev 2020 12:28

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.