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Novas luzes dão novas sombras

Para Jeanice

Os gregos contam que Teseu recebeu de presente de Ariadne um fio.
Com esse fio Teseu se orientou no labirinto, encontrou o Minotauro
e o matou. Dos rastros que Teseu deixou ao vagar pelo labirinto,
o mito não fala.
Carlo Ginzburg

A frase é simples: “Deitei-me sobre um leito depois de me haver despojado do manto e da túnica”. Quem a profere é Adriano, imperador romano, na carta-testamento endereçada a Marco Aurélio, seu sucessor. Isso ocorre no romance Memórias de Adriano (1951), de Marguerite Yourcenar, em que a autora belga reconstrói a vida dessa figura histórica por meio do relato ficcional em primeira pessoa.

No final de sua vida, aos 60 anos, doente, Adriano decide contar sua trajetória, decisões e contingências ao amigo que iria substituí-lo, senão como guia, ao menos como reflexão. A frase está no primeiro parágrafo do livro, logo após o “Meu caro Marco”, sinal claríssimo de que nos encontramos com uma carta. Nesse ato de despojar-se do manto e da túnica para realizar um exame médico, vemos a transformação do imperador em homem, que Yourcenar busca conhecer.

O simbolismo da túnica, do manto – bem como dos tapetes – e suas cores é corrente na Antiguidade. No ensaio Apolo Trágico, Yourcenar lembra do tapete púrpura que Clitemnestra estende a seu marido Agamênon, líder dos gregos, após retornar vitorioso de 10 anos da Guerra de Troia. Travestido de homenagem, o tapete leva a uma armadilha na qual a rainha e seu amante assassinam o rei como vingança por ter sacrificado a filha Ifigênia, antes mesmo da guerra, para conseguir bons ventos que levasse as naus contra o inimigo.

“No alto, no banheiro do palácio, os amantes adúteros afiam seus punhais como hospedeiros decididos a sangrar o estrangeiro, pois depois de dez anos de guerra, glória e ausência, Agamênon é apenas um estrangeiro para o coração de Clitemnestra”.

O próprio gesto de despojar-se do manto e da túnica, claramente visível em nossas mentes, é também uma operação textual. Com essa frase, Yourcenar também nos avisa: “Caro leitor, cara leitora, aqui eu despojo Adriano do manto e da túnica da História e o deixo nu, nu apenas como a Literatura pode fazer”. Essa triangulação entre imperador, homem e personagem tece o fio pelo qual a autora se orientou pelo labirinto da ficção.

É aí que quero me deter, no caminho que ela trilhou. Para despojar-se da História, Yourcenar teve que conhecê-la a fundo, saber de tudo sobre a Antiguidade que fosse útil para a construção de seu monumento. Foi um trabalho que durou décadas e que reúne árdua pesquisa, achados, acasos, reflexões e momentos de desespero, uma metáfora para a pesquisa científica, principalmente a não utilitária, que descobre mundos, que vislumbra e transforma, um paralelo que ouso julgar útil nesses nossos tempos anticientíficos.

Ela mesma conta essa história no Caderno de Notas que acompanha o livro, uma espécie de arqueologia de sua própria escrita. A primeira nota dá o tom do rigor com que Yourcenar trata o próprio trabalho: “Esse livro foi concebido, depois escrito, no todo e em parte, sob diversas formas, entre 1924 e 1929, dos vinte aos vinte e cinco anos. Todos esses manuscritos foram destruídos, e mereciam sê-lo”.

Nesses primeiros anos, porém, Yourcenar já havia encontrado o motivo de sua busca, um trecho de uma carta de Flaubert sublinhado por ela em 1927: “’Os deuses, não existindo mais, e o Cristo não existindo ainda, houve, de Cícero a Marco Aurélio, um momento único em que só existiu o homem’. Grande parte de minha vida ia passar-se tentando definir, depois descrever, esse homem sozinho e, no entanto, ligado a tudo”.

O projeto é retomado entre 1934 e 1937. Desse período, uma frase apenas permaneceu: “Começo a discernir o perfil de minha morte”. É quando ela encontra o “ponto de vista do livro”. A passagem da visita ao médico, remanejado, vem dessa época. Até 1939, o trabalho pouco avança. Durante a II Guerra e até 1948, talvez reflexos desses anos, ela vê o projeto com “indiferença” e “desânimo”. E a nota seguinte: “Mergulho no desespero de um escritor que não escreve”.

Mas, para ficarmos com a metáfora, a pesquisa continua porque a vida continua: em 1941, Yourcenar encontra por acaso gravuras de Piranesi, entre as quais Vila Adriana, de 1768. Novas luzes dão novas sombras: ela passa os anos seguintes contemplando diariamente a obra, apenas por gosto, sem dedicar-se a vinculá-la ao projeto: “Tais são os curiosos desvios daquilo a que chamamos esquecimento”. Também nunca deixou de ler autores da Antiguidade.

Escreve em 1943 o ensaio Mitologia grega e mitologia da Grécia em que, entre outros nomes, retrata Adriano como um mecenas que também buscava na Grécia um passado para sua Roma. No trecho a seguir desse texto, Yourcenar faz um breve histórico das relações entre a Grécia real e as Grécias imaginárias:

“... tal transfiguração já se produzira nos próprios gregos, o coro de Édipo em Colono, onde Sófocles contribui para a criação de uma Atenas lendária; na frisa do Partenon, onde os magistrados e recrutas quase não se distinguem dos deuses; no discurso que Tucídides empresta a Péricles e que faz de Atenas um lugar tão ideal quanto A República de Platão. Dessa Grécia de lenda, Pausânias será o turista, Plutarco o cronista, Adriano o mecenas benévolo”.

Em 1948, ela recebe de volta uma mala que havia deixado em depósito durante a guerra repleta de papéis de família e cartas velhas. Entre a correspondência com nomes que não mais importavam, ela encontra quatro ou cinco amareladas folhas datilografadas “Meu caro Marco...”. É o gatilho para retomar o texto: “Desde aquele momento, a questão era reescrever o livro, custasse o que custasse”.

Mais do que metáfora, talvez a literatura seja um espelho para a pesquisa científica. Dois caminhos em busca da verdade. É Marguerite Yourcenar mesmo que define:

“Refazer por dentro aquilo que os arqueólogos do século XIX fizeram por fora”.

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Pós Escrito
A fala em que Clitemnestra convida Agamênon a entrar no palácio (armadilha?) está na tragédia Agamemnon, de Ésquilo. O rei está reticente, não quer a homenagem, mas é convencido pela rainha:

“Não baste o muito que sofremos! Nada
de inveja! Agora, caro amigo, desce
do carro, sem pousar o pé no chão,
funesto à Tróia. Ó rei! O que esperais,
ancilas? Não mandei forrar a trilha
de seu percurso com alfombras rútilas?
Que a sua senda tinja-se de púrpura,
E Dike, a Justa, o leve ao lar sonhado!
Hipnos não dobra a mente que ao destino
Conduz o resta, reta. E o nume anui.”

Estante
Marguerite Yourcenar. Memórias de Adriano. Tradução Martha Calderaro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

Marguerite Yourcenar. Mitologia grega e mitologia da Grécia. In: Peregrina e estrangeira. Ensaios. Tradução Myriam Campello. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

Ésquilo. Agamemnon. Tradução, introdução e nota Trajano Vieira. São Paulo, Editora Perspectiva, 2007.

 

 

  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 08 mai 2020 18:59Atualizado em: quinta-feira, 28 mai 2020 13:17

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.