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Não negociamos vidas, capitão!

Morrer bem jovem é um erro. Morrer bem velho, também. Em geral, morrer é sempre um erro. O mal é que se poderia dizer o mesmo a respeito de viver
                                                                                                                       Joan Fuster

O título da Estante desta semana veio do filme Vingadores – Guerra Infinita. É uma fala de Visão dirigida ao Capitão América. Visão, ferido e afastado da luta pelo líder dos Vingadores, volta ao combate a tempo de salvá-lo de um golpe mortal desferido por Thanos (Thanatos é morte em grego). No filme, a fala demonstra o esforço do cuidado recíproco; aqui na Estante, uma interjeição contra aqueles que afirmam que há mortes aceitáveis para que a economia continue andando.

I
Escrevi já algumas vezes sobre Gonçalo Tavares, escritor português nascido em Angola em 1970 e que já esteve duas vezes por aqui a participar do Festival Tarrafa Literária. Autor já de dezenas de livros apesar da pouca idade, é dele a série O Reino, de títulos como Aprender a Rezar na Era da Técnica ou A Máquina do Senhor Walser, romances em que personagens arquetípicos são afetados pelo totalitarismo técnico e político, pela ditadura e a guerra civil em um incerto país europeu em uma incerta data, ainda que atual.

Essa série se desenvolve em um ambiente literário que lembra um pouco Franz Kafka e um pouco Robert Musil, autor de O Homem sem Qualidades. Em Aprender a Rezar na Era da Técnica, por exemplo, um médico busca controlar o país com a precisão cirúrgica de seu punho, uma metáfora da técnica macabra que define como se dão as relações sociais no mundo administrado.

II
Se em O Reino nos deparamos com metáforas incertas, o punhal literário de Tavares torna-se mais contundente para os tempos de hoje em Os velhos Também Querem Viver, adaptação da peça Alceste, de Eurípedes. Nessa novela-poema, o incerto país ganha corpo: a trama se desenrola em Saravejo, capital da Bósnia, durante o cerco à cidade, quando Admeto, o protagonista, recebe um tiro na cabeça. Protegido pelo deus Apolo, Admeto ganha a chance de sobreviver se outra pessoa se dispuser a morrer em seu lugar. E é Alceste, sua esposa, que se oferece, daí o título da peça original.

Na adaptação do português, o peso da história – sua moral –, como indica o título, é inclinado em direção àqueles que não se sujeitam ao sacrifício, os próprios pais de Admeto. E a justificativa é mesmo uma apunhalada literária:

“Se os novos gostam de viver, os velhos também.
E por que razão a vida de um velho valeria menos
do que a vida de alguém que agora começa?
Que cálculos absurdos são esses?
E por que não o contrário?
Por que não proteger a sabedoria dos muitos anos,
em vez da excitação do jovem que ainda quer conhecer?”

III
Para encerrar, dois poemas de Gonçalo Tavares do livro 1 que servem de reflexão sobre os dias:

OS MORTOS

Não há mortos que morram tanto como os nossos.
Se um daqueles que nos pertencem morre sete
ou setenta vezes no coração,
de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,
e os que sempre viveram longe
morrem-nos metade ou um oitavo. E metade
de uma morte é quase nada, são casas
decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)

OS GRUPOS

Mas é estranho isto, e receio o que a vida vai
Fazendo de mim sem a minha autorização.
Com 18 anos adorava mesas grandes, divertia-me,
Via no grupo movimentos e excitações que
Não chegava sozinho. Como se a alegria entre
Vinte pessoas fosse uma língua que um ser vivo
Isolado não conseguisse formular.
Não morrerei ignorando essa língua, mas agora
Fujo dela: cinco pessoas numa mesa me assustam
Como um assalto: dá-me!, sinto que dizem,
E a expectativa dos outros em relação à frase,
Ao silêncio ou à minha imobilidade,
Encosta o frio à camisa que trago,
Como o punhal discreto de um bom assaltante.
Não gosto de grupos, de aglomerações intermédias
Entre a amizade e o exército. A amizade faz-se de um
Para um, por vezes de dois para um; em matéria de sinceridade
O número quatro assusta-me.

Estante
Gonçalo M. Tavares. Aprender a rezar na era da técnica. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Gonçalo M. Tavares. Os velhos também querem viver. Rio de Janeiro: Editora Foz, 2014.

Gonçalo M. Tavares. 1 – Poemas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. 

 

 

  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 03 abr 2020 18:06Atualizado em: sexta-feira, 13 nov 2020 11:23

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.