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Gregos e americanos (com um russo no meio)

... creio que o fato de sermos europeus no exílio é uma vantagem,
pois não estamos amarrados a nenhuma tradição local, particular

Jorge Luis Borges

Há duas semanas, em Quinta de cinzas, anunciava que a Estante voltaria a se debruçar sobre a epígrafe daquele texto, a frase de Joseph Brodsky (1940-1996) que abre seu ensaio O som da maré: “As civilizações são finitas, e por isso sempre chega um momento na vida de todas elas em que o centro começa a se desagregar. O que as impede de se desintegrar não são suas legiões, mas a língua”.

I

O som da maré é dedicado a Derek Walcott (1930-2017), poeta antilhano Nobel de Literatura de 1992 nascido na ilha de Santa Lúcia. O parágrafo inicial argumenta que é a periferia das civilizações durante seus ocasos o local de onde surge a poesia que mantém a língua coesa: “... a periferia não é onde o mundo acaba – é lá precisamente onde ele se desenreda”.

Brodsky, nascido em São Petersburgo, ele mesmo Nobel de 1987, apesar de escrever poesia em russo, produziu seus ensaiosp em inglês, sua língua adotada desde que, dissidente da União Soviética, passou nos anos 70 a viver nos Estados Unidos. De seu aprendizado poético da língua inglesa, de estranhamento e admiração, ele extrai uma certeza. Ter nascido ali, onde “o sol, cansado de império, declina” (versos de Walcott), oferece ao poeta de Santa Lúcia um manancial inalcançável para alguém nascido em, digamos, Nova York ou Londres, a capital do Império. Aos versos, então, de Walcott, selecionados pelo russo e traduzidos pela Estante a partir da versão do livro:

“Eu sou só um negro ruivo que amo o mar,

Eu tive uma senhora educação colonial,

Eu tenho holandês, negro e inglês em mim,

e tanto não sou ninguém, ou sou uma nação.”

Diz Brodsky: “A dignidade e o intenso vigor retórico desta afirmação [a do último verso] são diretamente proporcionais tanto à região em cujo nome fala quanto à infinitude oceânica que a cerca. Sempre que ouvimos uma voz assim, sabemos com certeza: o mundo se revela”. E o russo vai além, afirma que a crítica dos dois lados do Atlântico – novamente, Nova York e Londres – engana-se ao classificá-lo como “poeta antilhano” ou “poeta negro do Caribe”: “A covardia tanto mental quando espiritual que se revela nessas tentativas de transformar este homem num escritor regional se explica ainda pela má vontade dos críticos em admitir que o grande poeta da língua inglesa é negro”.

Brodsky destaca a sensibilidade do ouvido de Walcott para a língua inglesa e sua “força descritiva” “verdadeiramente épica”, que o faz ter mais em comum com o Homero da Ilíada e da Odisseia do que com outros poetas de língua inglesa.

“Ah, admirável terceiro mundo!” é outro verso destacado pelo russo, uma alusão ao “Ah, admirável mundo novo!” de Shakespeare que Aldous Huxley reclamou para o título de seu livro mais conhecido. Uma simples exclamação que é todo um comentário sobre o “legado colonial” que ainda pesa sobre grande parte da América (escrevo América, não Estados Unidos, que são coisas distintas).

II

Se Walcott, da ilha de Santa Lúcia, ecoa Homero, outro poeta americano, desta vez o peruano Óscar Limache (1958), faz eco a outros gregos em seu livro Viagem à língua do porco-espinho, prêmio Copé de Oro de poesia de 1988. Na seção Três poetas gregos, o poeta de Lima absorve quase que na íntegra, com toques limenhos, poemas de Giórgos Seféris (1900-1971), Odysseus Elytis (1911-1986) e Konstantinos Kaváfis (1863-1933), de quem reelabora o famoso poema À espera dos bárbaros.

Para trazer os bárbaros de Kaváfis para o Peru, Limache opera por dentro da própria linguagem poética, a tal “língua do porco-espinho” e, logo após as citações-homenagens aos gregos do século XX, o autor peruano nos oferece o poema Lima Ano Huno, em que explora o trocadilho em espanhol entre o povo huno e o primeiro ano de uma nova etapa histórica. A tradução vai a seguir:

LIMA ANO HUNO

um ano

mais ou menos / não há lugar

para recolher uma série de feitos

e confrontá-los / mas realmente

em tempos como os que estamos passando

nada era estranho

o comum era a normalidade / dito de outra maneira

às vezes me produz uma notável desolação

ter nascido

na pré-história / os anos moços passaram

e agora saber que se deve ser

e que se deve estar / há um momento em que minha civilização

clama por minha barbárie

exige de uma vez que os bárbaros

esses analfabetos inocentes sensíveis

esmaguem

com seu ódio criador

os civilizados sapientes e assassinos

mas exige também

e isso é o grave

que em meu próprio claustro

em meu próprio território

em minha defendida solidão

a violência oprima

com ódio igualmente criador

os infinitos pudores e credos

o delírio do real

faça estilhaços

das opulentas dúvidas do intelecto

o ultimato da pobre alegria

derrube para sempre

minhas sólidas barricadas desgostosas / para tocar o sonho

pra tocar a vida

com toda sua enorme humanidade / como hunos

com cabeças raspadas e tranças solitárias

olhando o horizonte

com odores nauseabundos

visitando os amigos

e os inimigos

sentados em montarias

sobre a realidade

realidade medida

calculada sonhada admirada

toda a vida

sobre patas curtas e hirsutas

avançaram com maestria

donos de seus meios

Viagem à língua do porco-espinho é repleto de diálogos e ecos. Em primeiro plano, é uma resposta americana ao livro As Cidades Invisíveis (1972), clássico contemporâne do italiano Italo Calvino, em que Marco Polo, em suas viagens para a China, descreve as cidades do império para o governante que, imerso nas questões administrativas da nação, acaba sem tempo de conhecê-las.

Limache, por sua vez, faz um movimento contrário: traz para Lima todas as cidades do mundo: as reais, as históricas, as mitológicas e inventadas. Um exemplo dessa operação é o poema Canaã, em que se dança a marinera, dança típica peruanam, no casamento de Jesus e Maria Madalena. O livro é dividido em duas partes: As Cidades Invisíveis, a maior parte do livro, com a reunião dessas cidades,  e A Louca Escorpião e outras histórias de Lima, com poemas que giram em torno da capital peruana. É a parte em que está a seção Três poetas gregos. 

Estante
Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari. A identidade dos argentinos. In: Sobre os sonhos e outros diálogos. São Paulo: Hedra, 2009.

Joseph Brodsky. O som da maré. In: Menos que um: Ensaios. Tradução Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 (1ª edição 1986).

Óscar Limache. Viaje a la lengua del puercospín. Lima-Peru / Santiago de Chile: Amotape Libros / Andesgraund Ediciones, 5ª edição, 2016 (1ª edição 1989).

Uma seleção de poemas da primeira parte de Viagem à língua do porco-espinho foi publicada em Santos de forma artesanal pela editora Sereia Ca(n)tadora sob o título Espinhos do porco-espinho, com traduções realizadas por este colunista.

Mais sobre a ponte literária de traduções entre Santos e Lima em:
http://alessandroatanes8.wixsite.com/esquinasdomundo/traducoes

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 13 mar 2020 14:01

Comentários (1)

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Alessandro Atanes

• 13/03/2020 14:08

Mensagem de Lima
Óscar Limache me envia um recado desde o Peru informando que seu Lima Año Huno é um "centón", isto é, um poema construído com fragmentos de poemas de diversos autores que são citados ao fim do poema em livro. Assim, nesse mar de ecos e homenagens que fazem parte desse texto, fica o registro também dessa outra forma de incorporação artística.

     
Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.