REPRODUÇÃO REPRODUÇÃO

E o mundo não vai acabar

… ainda não havia nada, mas já existiam as pessoas
Mito cosmogônico dos Yawanawa, povo da Amazônia



Há alguns anos, em maio de 2016, logo após as ressacas terem derrubado centenas de metros de muretas (IOIIOIIOIIOIIOI) na Ponta da Praia e outros locais da cidade, escrevi o texto Os fins do mundo de Santos – catálogo em cinco partes, no qual previa – previa não, porque a situação é muito óbvia – que, por mais que fossem reconstruídas, esse novo símbolo da cidade iria cair novamente sob as forças do mar.

Enumerava uma série de fins, alguns simbólicos, pelos quais a cidade já havia passado: a ressaca anterior de 2005, o desmoronamento na Serra, o desmanche dos casarões da cidade e dos universos de seus objetos e memórias pessoais, o colégio Docas (onde estudei) em ruínas, o fim dos clubes e dos prédios das universidades. Além da ressaca, a cidade havia acabado de sofrer em janeiro vazamento de produtos químicos na margem esquerda do porto, que matou gente, e, no ano anterior, as explosões de tanques de combustível na entrada da cidade, episódios que ecoam os incêndios em tanques da Ilha Barnabé em 1991 e 1998, o descaso trágico de Vila Socó em 1984 ou mesmo o desmoronamento do Monte Serrat em 1928.

Enfim, estava aí o catálogo que fiz à época, recheado ainda de referências da ficção sobre a destruição da cidade.


I

Aqui na Vila Mathias, a água que entrou em casa e o barro que desceu a encosta do Monte Serrat por causa das chuvas desse início de março não ultrapassaram a altura do pé da estante, mas as mortes e a destruição fizeram que eu voltasse ao texto de 2016, no qual noto hoje um desejo quase milenarista de recomeço a partir do zero. Talvez não fosse um desejo, parece-me mais provável que esse tom tenha sido resultado da incapacidade de perceber qualquer alternativa à repetição de tragédias.

Então lembrei de uma declaração do filósofo esloveno Slavoj Žižek, não sei se lida em um texto ou feita em uma entrevista, na qual ele se pergunta por quais motivos é mais fácil imaginarmos o fim do mundo (e Hollywood e a ficção fantásticas estão aí para nos contar vários fins do mundo) do que imaginarmos o fim da atual forma de organização econômica e social que tem aproximado o planeta de seu esgotamento.

É aí que entra a leitura da semana, Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins, livro de 2014 escrito a quatro mãos pela professora de filosifia Déborah Danowsky e o etnólogo Eduardo Viveiros de Castro onde citam o xamã Yanomami Davi Kopenawa: “Os Brancos não temem, como nós, ser esmagados pela queda do céu. Mas um dia eles terão medo, talvez quanto nós!”.

Essa repetição de ocorrências (naturais, ampliadas pela humanidade, ou simplesmente causadas por nós) talvez já esteja nos fazendo sentir o medo de sermos esmagados pela queda do céu.

No finzinho do livro, desdobrando o mito Yawanawa, de que nada havia antes além das pessoas, a dupla de autores do livro ensina que não devemos nos limitar a falar do fim, ou, arrisco, que o fim deve ficar para trás:

“Falar no fim do mundo é falar na necessidade de imaginar, antes que um novo mundo em lugar deste nosso mundo presente, um novo povo; o povo que falta. Um povo que creia no mundo que ele deverá criar com o que de mundo que nós deixamos a ele.”

O medo a perder agora é o de pensar e imaginar uma nova forma de a humanidade estar no mundo. É o que nos cobram os que morreram.

Estante
Déborah Danowski & Eduardo Viveiros de Castro. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Rio de Janeiro: Florianópolis: Editora Cultura e Barbárie, 2014.

Alessandro atanes. Os fins do mundo de Santos: catálogo em cinco parte, 20 de maio de 2016. In: https://medium.com/@Atanes/os-fins-do-mundo-de-santos-cat%C3%A1logo-em-cinco-partes-832bb37c5bfe.

 

 

  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 06 mar 2020 16:08Atualizado em: sexta-feira, 06 mar 2020 16:15

Comentários (0)

Enviar Comentário
     
Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.