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Corujinha Bubu e Umberto Eco: Falso, mentira e invenção

No fundo, o primeiro dever da pessoa de cultura
é o de manter-se alerta para reescrever a cada dia a enciclopédia.
Umberto Eco
                                               

Quem gosta de documentários sobre vida selvagem já deve ter visto imagens de pássaros pousados tranquilamente dentro de escancaradas bocarras de crocodilos. Estão ali se alimentando de restos de comida presos entre os dentes dos répteis que, em troca da higiene bucal, nada fazem contra as aves.


I
No episódio Operação Resgate da série de animação infantil Bubu e as Corujinhas, Bubu, uma coruja criança passeando na mata com seu irmão e sua irmã, chega à margem de um rio e depara-se com um crocodilo de boca aberta com um passarinho ali dentro.

Bubu, que deve nunca ter visto um documentário sobre vida selvagem, chega à conclusão de que o pássaro está em perigo e convence os irmãos a participar de um plano de resgate, daí o título do episódio. A aflição de Bubu é tanta que, além dos irmãos (sua irmãzinha é tão pequena que ainda está com a casca de ovo entre as pernas como uma fralda) envolve também o macaco, a girafa e outros bichos na operação.

Ao final, a corujinha acaba aprendendo que o que parece às vezes não é. É a mãe de Bubu que dá a lição: “Corujinhas, a intenção de vocês foi boa, mas é preciso muito cuidado para não espalhar alarmes falsos. Vocês poderiam ter assustado muitos animais. Nunca devemos contar algo sem termos certeza de que é uma verdade”.

A fala acima parece ter sido escrita para alertar as crianças desde bem pequenas a não repassar notícias falsas ou boatos. Não é à toa que o episódio, da temporada de 2018, concorreu naquele ano a melhor curta de animação no Festival Internacional de Animação Ajayu, realizado em Puno, Peru.

II
Em A Força do Falso, Umberto Eco discorre sobre os motivos que forjaram tal força. Talvez o principal seja o erro, “motor de muitos eventos da história”, como no caso de Bubu ou no “descobrimento” da América por Colombo quando buscava as Índias navegando para o Ocidente. Mas o que ocorre quando a falsa mensagem é fruto da elaboração intencional?

Não faltam falsos inventados, como as Memórias para servir à história do jacobinismo, escritas entre 1797 e 1798, em que o abade Barruel, ao invés de tratar a Revolução Francesa como resposta ao Ancién Regime, inventa como causa um complô dos Templários envolvendo Voltaire, Turgot, Condorcet, Diderot e d’Alambert (os caras da Enciclopédia), confundindo iluministas com iluminatti.  Já no século XIX, esse manuscrito seria usado pelo romancista Eugène Sue em Os mistérios do povo (1849), em que o mesmo complô ganha nova dimensão, com os jesuítas no lugar dos iluministas e o clero como alvo da revolução. Alguns anos depois, em 1864, Maurice Joly publica Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu, no qual, ainda conforme Eco, o conspirador principal passa a ser Napoleão III. Esse é o momento dos libelos caluniosos ou mesmo fantasiosos, e o público meio que consegue se equilibrar com um pé na canoa da fantasia e outro na canoa do complô.

A coisa começa a se complicar quando os libelos passam a ser tomados por crônicas de fatos reais. E isso passa a ocorrer nas últimas décadas do século XIX, momento de ascensão do antissemitismo em que os conspiradores passam a ser identificados como judeus (para lembrar, era a época do icônico caso das falsas acusações do caso Dreyfus). Na Rússia, Pëter Ivanovich Rakovsky, um revolucionário ligado ao terrorismo de extrema-direita, reescreve o diálogo para acusar Elie de Cyon, inimigo político de seu protetor, e pronto: a conspiração judia está pronta.

Eco considera como o texto de Rakovsky é provavelmente a principal matéria-prima dos Protocolos dos Sábios Anciões do Sion, recheados também de romances populares franceses, mas que foi levado a sério e publicado por Serguei Nilus, um monge “obcecado pela ideia do Anticristo”. O resto é história: “Depois disso o texto viaja através da Europa até chegar às mãos de Hitler...”.

Em outro texto, o intelectual italiano alerta que mais perigoso do que figuras como Rakovsky ou Nilus é o fato de que se acredita neles: “Que um aventureiro ou aventureira teçam intrigas, ora sendo desmascarados, ora obtendo vantagens, é normal. Mas que uma pessoa presumivelmente de inteligência mediana, com deveres políticos e religiosos, se deixe convencer por tais intrigas, fascinada, obnubilada, e consiga passar à história como monumento de imbecilidade, isso não cessa de preocupar-nos”.

Quando a inteligência mediana sucumbe, temos o fascismo. Em O fascismo eterno (Ur-fascismo), originalmente uma conferência de 1995, Eco é claro: “O Ur-fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica porque uma das características típicas dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato autoexclui-se da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria o seu auditório”.

Auditório creio ser mesmo a palavra mais adequada para o contínuo deslocamento do discurso do líder fascista, pois “os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais”. Exemplo disso é como o presidente do Brasil trata a pandemia de COVID-19, ora uma gripezinha, ora uma doença que necessita de um canhão químico como a cloroquina. E mesmo a solução do canhão, ainda que aponte para essa esquizofrenia do discurso, ela mesma deriva do “pensamento mágico” (expressão usada pela historiadora Lilia Schwarcz em entrevista sobre a doença) de que há uma solução simplista anunciada pelo grande líder.

Voltando a Eco: “Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a ‘voz do povo’”.

III
Perpassa por praticamente todos os textos ensaísticos de Eco a ideia de Literatura como uma chave de compreensão do mundo. Nesse cenário de multiplicação do falso e do engano por meio do rebaixamento da inteligência mediana, a Literatura torna-se também antídoto. Ao conhecer ou pelo menos ter contato com os mecanismos narrativos da invenção, criamos em nossos cérebros anticorpos retóricos capazes de identificar ou pelo menos suspeitar de falsas promessas, falsas notícias e falsas esperanças, bem como falsos apocalipses.

“A função dos contos ‘imodificáveis’ é precisamente esta: contra qualquer desejo de mudar o destino, eles nos fazem tocar com os dedos a impossibilidade de mudá-lo. E assim fazendo, qualquer que seja a história que estejam contando, contam também a nossa, e por isso nós os lemos e os amamos. Temos necessidade de sua severa lição ‘repressiva’. A narrativa hipertextual pode nos educar para a liberdade e para a criatividade. É bom, mas não é tudo”. Os contos ‘já feitos’ nos ensinam também a morrer.”

“Creio que esta educação ao Fado e à morte é uma das funções principais da literatura. Talvez existam outras, mas não me vêm à mente agora”.

Estante
Umberto Eco. A força do falso & Sobre algumas funções da literatura. In: Sobre a literatura. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2003.

Umberto Eco. Entre a mentira e a ironia. Tradução Eliana Aguiar.Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2003.

Umberto Eco. O fascismo eterno. In: Cinco escritos morais. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2003.

100 dias que mudaram o mundo. Entrevista com a historiadora Lilia Schwarcz
https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/coronavirus-100-dias-que-mudaram-o-mundo/#100-dias-que-mudaram-o-mundo

Operação Resgate. Episódio de Bubu e as Corujinhas
https://www.youtube.com/watch?v=gHNT7yKgik0

 

 

  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: segunda-feira, 13 abr 2020 14:16Atualizado em: sexta-feira, 13 nov 2020 11:20

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.