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A bondade frágil

Salve, Posídon sustentáculo da terra, deus de negra cabeleira,
bem aventurado e de coração benévolo, socorrei os navegantes
Hino Homérico 22

Começo com um pedido de desculpas: jornalista da Secretaria de Saúde de Cubatão, fui tomado nos últimos dias por uma série de tarefas e atividades de produção de material informativo sobre a COVID-19. Se não houvesse tanta fake news para desmentir, talvez conseguisse entregar o texto na quinta-feira, como combinado, mas escrevo apenas agora, sexta-feira à noite.

I
Talvez já tenha lido isto há mais de dez anos. Foi em uma coluna de Olgária Matos no Estado de S. Paulo. Do assunto do texto já não me lembro, cristalina em minha memória está uma frase ensinada ali pela professora de filosofia: “etiqueta é a ética das pequenas coisas”. Essa imagem cristalina (até releio a frase na folha do jornal um pouco abaixo da foto da colunista) voltou das gavetas das memórias por causa justamente de algumas peças de informação sobre prevenção, com cuidados que as pessoas devem ter ao espirrar, tossir, manter distância, ações, entre outras, que são reunidas sob a expressão “etiqueta respiratória”.

Se pensarmos em ética como a responsabilidade do cuidar de si e dos outros, não seria também uma manifestação de etiqueta os aplausos aos profissionais de Saúde que ecoaram por cidades de todo o país agora há pouco? Uma pequena coisa, esse gesto de bater as palmas das mãos, um carinho para uma série de profissionais que estarão nos próximos meses na linha de frente dos cuidados com a população frente à situação calamitosa na qual nos encontramos.

Mas enquanto parte da população bate palmas, também surgem casos de agressões a funcionários da Saúde como os relatos de hoje à tarde no metrô de São Paulo, onde pessoas foram maltratadas por estarem vestindo uniformes de hospitais do Centro da cidade.

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II
A Fragilidade da Bondade – Fortuna e Ética na Tragédia e na Filosofia Grega, de 1986, é o livro em que a filósofa Martha Nussbaum discute a ação ética (a ética é sempre uma ação, uma responsabilidade que se toma). No prefácio à edição revista, publicada em 2001, a professora escreve algo que talvez ilumine essas agressões: “... há o fato de que alguns valores humanos expõem o ser humano ao risco. O cuidado com as crianças, os amigos, as pessoas amadas; o cuidado para com a cidadania política e a ação política; o cuidado, em geral, quanto à capacidade de agir, e não apenas de ser – todas essas preocupações colocam a pessoa que as estima à mercê da fortuna, pelo menos em alguns aspectos”.

As pessoas que evitaram o embarque de um grupo de funcionários de um hospital em um carro de metrô ou aquela outra que xingou e jogou uma torta (ou um bolo, não faz diferença) em uma técnica de enfermagem numa plataforma de outra estação, essas pessoas, com seus atos, afirmam que não estão dispostas a ficar “à mercê da fortuna” ao dividiram o espaço público com alguém que saiu de um hospital. Logo depois, a filósofa afirma: “... a indolência, o erro e a cegueira ética causam inúmeras tragédias”.

O livro de Nussbaum, publicado no Brasil em 2009, é duro, bem difícil, ainda que não abuse de linguajar técnico (sua dificuldade é a do tema espinhoso que nos aponta o título). Um dos grandes méritos da obra é mostrar como os temas morais e éticos de filósofos como Platão e Aristóteles já estavam entranhados em tragédias como As Troianas de Eurípedes e Filoctetes ou Antígona de Sófocles.

Ao tratar de Filoctetes, por exemplo, Nussbaum reflete: “O clamor de Neoptólemo, as agonias sempre vigilantes do coro, não são meios para uma apreensão de que se encontra no intelecto; são peças de identificação e reconhecimento de realidades humanas difíceis. Há um tipo de conhecimento que opera pelo sofrimento, porque o sofrimento é o reconhecimento apropriado do modo como é, nesses casos, a vida humana”.

Filoctetes é um arqueiro grego que por uma chaga fétida na perna causada por uma mordida de cobra é deixado por seus companheiros na ilha de Crisa, onde passa a viver como um eremita. Isso quando os contingentes gregos ainda se dirigiam à Troia. Quando, após dez anos de batalhas, um oráculo revela que a guerra contra a cidade de Hécuba – a rainha, uma das troianas da peça – só será vencida com a participação de Filoctetes, Ulisses, um dos que o havia deixado para trás, arma um ardil para que Neoptólemo, filho de Aquiles, que era o melhor amigo de Filoctetes, use o nome do pai para convencê-lo a se juntar ao conflito.

A peça gira em torno das dúvidas do filho de Aquiles, que passa a sentir afeto pelo moribundo, e das certezas de Filoctetes, que repudia unir-se novamente aos seus, o que só ocorre por intervenção divina. Antes, porém, Filoctetes diz a Ulisses o que devemos dizer aos que impediram os trabalhadores da Saúde de entrarem no vagão do metrô:

“Teu pensamento é doente e escravizado”!

III
Para encerrar, retorno ao prefácio de Nussbaum:

“Mas a verdadeira notícia da tragédia grega, para nós (...) é que somos tão culpáveis como Zeus em Trakhínai, como os generais gregos em As Troianas, como Odisseu [Ulisses] em Filoctetes e como muitos outros deuses e mortais em muitas épocas e lugares – a menos e até que nos livremos de nossa indolência, ambição egoísta e obtusidade e nos perguntarmos como os males que testemunhamos poderiam ser impedidos. Como sabia Filoctetes, piedade significa ação: intervenção em nome do sofrimento, ainda que difícil e repulsivo. Se deixarmos a ação de lado, somos covardes ignóbeis, talvez também hipócritas e mentirosos. Se ajudamos, fizemos algo bom”.

Pós Escrito
Já que falamos de gregos, a palavra epidemia (sobre o povo) também é grega. Referia-se originalmente à chegada de um deus ou deusa a alguma cidade. Como é comum na mitologia, uma praga ou doença que acomete alguma localidade foi causada por algum deus descontente com os habitantes do lugar. Logo, aos poucos, por contaminação, seu sentido foi se transformando de a vinda do deus para a eclosão de alguma doença.

Estante

Baseado na obra de Eurípedes, o filme conta a tragédia de Hécuba, rainha vencida, viúva de Príamo, que ao lado de outras mulheres de Tróia, resistem em perder sua querida cidade e entregá-la às mãos dos vencedores gregos. Filme de 1971, dirigido por Michael Cacoyannis. Elenco: Katharine Hepburn, Vanessa Redgrave, Geneviève Bujold, Irene Papas.



Martha Nussbaum. A Fragilidade da Bondade – Fortuna e Ética na Tragédia e na Filosofia Grega. Tradução Ana Aguiar Cotrim. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009 (1ª edição 1986).

Sófocles. Filoctetes. Tradução, posfácio e notas Trajano Vieira. São Paulo: Editora 34, 2009.

Giulia Sissa e Marcel Detienne. Os deuses gregos. Coleção A Vida Cotidiana. Tradução Rosa Maria Boaventura. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

 

 

  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: terça-feira, 24 mar 2020 11:18Atualizado em: terça-feira, 24 mar 2020 11:20

Comentários (1)

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Manuel Barral

• 25/03/2020 12:14

A cólera dos aventais.
Não apoio o ódio a ninguém embora fascistas e sua violencia verbal e física me impelem a alguma reação. No caso dos aventais eu observo, há tempos, uma prática incorreta de sair do trabalho hospitalar vestindo-os . Fui um pesquisador em Biotecnologia e sempre recebo a orientaçao de não sair do laboratório com o avental ou jaleco usado no trabalho. O avental deve permanecer no laboratório ou ser recolhido para esterizaçao ou lavagem. No caso, por prudênvai e higiene deveria estar guardado. É impensável o "conatus " espiniosano como força vital? Gostei muito, em especial das referências gregas.

     
Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.