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Não negociamos vidas, capitão!

Morrer bem jovem é um erro. Morrer bem velho, também. Em geral, morrer é sempre um erro. O mal é que se poderia dizer o mesmo a respeito de viver
                                                                                                                       Joan Fuster

O título da Estante desta semana veio do filme Vingadores – Guerra Infinita. É uma fala de Visão dirigida ao Capitão América. Visão, ferido e afastado da luta pelo líder dos Vingadores, volta ao combate a tempo de salvá-lo de um golpe mortal desferido por Thanos (Thanatos é morte em grego). No filme, a fala demonstra o esforço do cuidado recíproco; aqui na Estante, uma interjeição contra aqueles que afirmam que há mortes aceitáveis para que a economia continue andando.

I
Escrevi já algumas vezes sobre Gonçalo Tavares, escritor português nascido em Angola em 1970 e que já esteve duas vezes por aqui a participar do Festival Tarrafa Literária. Autor já de dezenas de livros apesar da pouca idade, é dele a série O Reino, de títulos como Aprender a Rezar na Era da Técnica ou A Máquina do Senhor Walser, romances em que personagens arquetípicos são afetados pelo totalitarismo técnico e político, pela ditadura e a guerra civil em um incerto país europeu em uma incerta data, ainda que atual.

Essa série se desenvolve em um ambiente literário que lembra um pouco Franz Kafka e um pouco Robert Musil, autor de O Homem sem Qualidades. Em Aprender a Rezar na Era da Técnica, por exemplo, um médico busca controlar o país com a precisão cirúrgica de seu punho, uma metáfora da técnica macabra que define como se dão as relações sociais no mundo administrado.

II
Se em O Reino nos deparamos com metáforas incertas, o punhal literário de Tavares torna-se mais contundente para os tempos de hoje em Os velhos Também Querem Viver, adaptação da peça Alceste, de Eurípedes. Nessa novela-poema, o incerto país ganha corpo: a trama se desenrola em Saravejo, capital da Bósnia, durante o cerco à cidade, quando Admeto, o protagonista, recebe um tiro na cabeça. Protegido pelo deus Apolo, Admeto ganha a chance de sobreviver se outra pessoa se dispuser a morrer em seu lugar. E é Alceste, sua esposa, que se oferece, daí o título da peça original.

Na adaptação do português, o peso da história – sua moral –, como indica o título, é inclinado em direção àqueles que não se sujeitam ao sacrifício, os próprios pais de Admeto. E a justificativa é mesmo uma apunhalada literária:

“Se os novos gostam de viver, os velhos também.

E por que razão a vida de um velho valeria menos

do que a vida de alguém que agora começa?

Que cálculos absurdos são esses?

E por que não o contrário?

Por que não proteger a sabedoria dos muitos anos,

em vez da excitação do jovem que ainda quer conhecer?”

III
Para encerrar, dois poemas de Gonçalo Tavares do livro 1 que servem de reflexão sobre os dias:


OS MORTOS

Não há mortos que morram tanto como os nossos.

Se um daqueles que nos pertencem morre sete

ou setenta vezes no coração,

de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,

e os que sempre viveram longe

morrem-nos metade ou um oitavo. E metade

de uma morte é quase nada, são casas

decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)


OS GRUPOS

Mas é estranho isto, e receio o que a vida vai

Fazendo de mim sem a minha autorização.

Com 18 anos adorava mesas grandes, divertia-me,

Via no grupo movimentos e excitações que

Não chegava sozinho. Como se a alegria entre

Vinte pessoas fosse uma língua que um ser vivo

Isolado não conseguisse formular.

Não morrerei ignorando essa língua, mas agora

Fujo dela: cinco pessoas numa mesa me assustam

Como um assalto: dá-me!, sinto que dizem,

E a expectativa dos outros em relação à frase,

Ao silêncio ou à minha imobilidade,

Encosta o frio à camisa que trago,

Como o punhal discreto de um bom assaltante.

Não gosto de grupos, de aglomerações intermédias

Entre a amizade e o exército. A amizade faz-se de um

Para um, por vezes de dois para um; em matéria de sinceridade

O número quatro assusta-me.

Estante
Gonçalo M. Tavares. Aprender a rezar na era da técnica. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Gonçalo M. Tavares. Os velhos também querem viver. Rio de Janeiro: Editora Foz, 2014. Gonçalo M. Tavares. 1 – Poemas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. Joan Fuster. Diccionari per a ociosos I (Dicionário para ociosos). Barcelona, Espanha: El Observador, 1991 (1ª edição 1963).

 

 

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 03 abr 2020 18:06Atualizado em: sexta-feira, 03 abr 2020 18:24
REPRODUÇÕES REPRODUÇÕES

A bondade frágil

Salve, Posídon sustentáculo da terra, deus de negra cabeleira,
bem aventurado e de coração benévolo, socorrei os navegantes
Hino Homérico 22

Começo com um pedido de desculpas: jornalista da Secretaria de Saúde de Cubatão, fui tomado nos últimos dias por uma série de tarefas e atividades de produção de material informativo sobre a COVID-19. Se não houvesse tanta fake news para desmentir, talvez conseguisse entregar o texto na quinta-feira, como combinado, mas escrevo apenas agora, sexta-feira à noite.

I
Talvez já tenha lido isto há mais de dez anos. Foi em uma coluna de Olgária Matos no Estado de S. Paulo. Do assunto do texto já não me lembro, cristalina em minha memória está uma frase ensinada ali pela professora de filosofia: “etiqueta é a ética das pequenas coisas”. Essa imagem cristalina (até releio a frase na folha do jornal um pouco abaixo da foto da colunista) voltou das gavetas das memórias por causa justamente de algumas peças de informação sobre prevenção, com cuidados que as pessoas devem ter ao espirrar, tossir, manter distância, ações, entre outras, que são reunidas sob a expressão “etiqueta respiratória”.

Se pensarmos em ética como a responsabilidade do cuidar de si e dos outros, não seria também uma manifestação de etiqueta os aplausos aos profissionais de Saúde que ecoaram por cidades de todo o país agora há pouco? Uma pequena coisa, esse gesto de bater as palmas das mãos, um carinho para uma série de profissionais que estarão nos próximos meses na linha de frente dos cuidados com a população frente à situação calamitosa na qual nos encontramos.

Mas enquanto parte da população bate palmas, também surgem casos de agressões a funcionários da Saúde como os relatos de hoje à tarde no metrô de São Paulo, onde pessoas foram maltratadas por estarem vestindo uniformes de hospitais do Centro da cidade.

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II
A Fragilidade da Bondade – Fortuna e Ética na Tragédia e na Filosofia Grega, de 1986, é o livro em que a filósofa Martha Nussbaum discute a ação ética (a ética é sempre uma ação, uma responsabilidade que se toma). No prefácio à edição revista, publicada em 2001, a professora escreve algo que talvez ilumine essas agressões: “... há o fato de que alguns valores humanos expõem o ser humano ao risco. O cuidado com as crianças, os amigos, as pessoas amadas; o cuidado para com a cidadania política e a ação política; o cuidado, em geral, quanto à capacidade de agir, e não apenas de ser – todas essas preocupações colocam a pessoa que as estima à mercê da fortuna, pelo menos em alguns aspectos”.

As pessoas que evitaram o embarque de um grupo de funcionários de um hospital em um carro de metrô ou aquela outra que xingou e jogou uma torta (ou um bolo, não faz diferença) em uma técnica de enfermagem numa plataforma de outra estação, essas pessoas, com seus atos, afirmam que não estão dispostas a ficar “à mercê da fortuna” ao dividiram o espaço público com alguém que saiu de um hospital. Logo depois, a filósofa afirma: “... a indolência, o erro e a cegueira ética causam inúmeras tragédias”.

O livro de Nussbaum, publicado no Brasil em 2009, é duro, bem difícil, ainda que não abuse de linguajar técnico (sua dificuldade é a do tema espinhoso que nos aponta o título). Um dos grandes méritos da obra é mostrar como os temas morais e éticos de filósofos como Platão e Aristóteles já estavam entranhados em tragédias como As Troianas de Eurípedes e Filoctetes ou Antígona de Sófocles.

Ao tratar de Filoctetes, por exemplo, Nussbaum reflete: “O clamor de Neoptólemo, as agonias sempre vigilantes do coro, não são meios para uma apreensão de que se encontra no intelecto; são peças de identificação e reconhecimento de realidades humanas difíceis. Há um tipo de conhecimento que opera pelo sofrimento, porque o sofrimento é o reconhecimento apropriado do modo como é, nesses casos, a vida humana”.

Filoctetes é um arqueiro grego que por uma chaga fétida na perna causada por uma mordida de cobra é deixado por seus companheiros na ilha de Crisa, onde passa a viver como um eremita. Isso quando os contingentes gregos ainda se dirigiam à Troia. Quando, após dez anos de batalhas, um oráculo revela que a guerra contra a cidade de Hécuba – a rainha, uma das troianas da peça – só será vencida com a participação de Filoctetes, Ulisses, um dos que o havia deixado para trás, arma um ardil para que Neoptólemo, filho de Aquiles, que era o melhor amigo de Filoctetes, use o nome do pai para convencê-lo a se juntar ao conflito.

A peça gira em torno das dúvidas do filho de Aquiles, que passa a sentir afeto pelo moribundo, e das certezas de Filoctetes, que repudia unir-se novamente aos seus, o que só ocorre por intervenção divina. Antes, porém, Filoctetes diz a Ulisses o que devemos dizer aos que impediram os trabalhadores da Saúde de entrarem no vagão do metrô:

“Teu pensamento é doente e escravizado”!

III
Para encerrar, retorno ao prefácio de Nussbaum:

“Mas a verdadeira notícia da tragédia grega, para nós (...) é que somos tão culpáveis como Zeus em Trakhínai, como os generais gregos em As Troianas, como Odisseu [Ulisses] em Filoctetes e como muitos outros deuses e mortais em muitas épocas e lugares – a menos e até que nos livremos de nossa indolência, ambição egoísta e obtusidade e nos perguntarmos como os males que testemunhamos poderiam ser impedidos. Como sabia Filoctetes, piedade significa ação: intervenção em nome do sofrimento, ainda que difícil e repulsivo. Se deixarmos a ação de lado, somos covardes ignóbeis, talvez também hipócritas e mentirosos. Se ajudamos, fizemos algo bom”.

Pós Escrito
Já que falamos de gregos, a palavra epidemia (sobre o povo) também é grega. Referia-se originalmente à chegada de um deus ou deusa a alguma cidade. Como é comum na mitologia, uma praga ou doença que acomete alguma localidade foi causada por algum deus descontente com os habitantes do lugar. Logo, aos poucos, por contaminação, seu sentido foi se transformando de a vinda do deus para a eclosão de alguma doença.

Estante

Baseado na obra de Eurípedes, o filme conta a tragédia de Hécuba, rainha vencida, viúva de Príamo, que ao lado de outras mulheres de Tróia, resistem em perder sua querida cidade e entregá-la às mãos dos vencedores gregos. Filme de 1971, dirigido por Michael Cacoyannis. Elenco: Katharine Hepburn, Vanessa Redgrave, Geneviève Bujold, Irene Papas.



Martha Nussbaum. A Fragilidade da Bondade – Fortuna e Ética na Tragédia e na Filosofia Grega. Tradução Ana Aguiar Cotrim. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009 (1ª edição 1986).

Sófocles. Filoctetes. Tradução, posfácio e notas Trajano Vieira. São Paulo: Editora 34, 2009.

Giulia Sissa e Marcel Detienne. Os deuses gregos. Coleção A Vida Cotidiana. Tradução Rosa Maria Boaventura. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

 

 

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: terça-feira, 24 mar 2020 11:18Atualizado em: terça-feira, 24 mar 2020 11:20
REPRODUÇÃO REPRODUÇÃO

Gregos e americanos (com um russo no meio)

... creio que o fato de sermos europeus no exílio é uma vantagem,
pois não estamos amarrados a nenhuma tradição local, particular

Jorge Luis Borges

Há duas semanas, em Quinta de cinzas, anunciava que a Estante voltaria a se debruçar sobre a epígrafe daquele texto, a frase de Joseph Brodsky (1940-1996) que abre seu ensaio O som da maré: “As civilizações são finitas, e por isso sempre chega um momento na vida de todas elas em que o centro começa a se desagregar. O que as impede de se desintegrar não são suas legiões, mas a língua”.

I

O som da maré é dedicado a Derek Walcott (1930-2017), poeta antilhano Nobel de Literatura de 1992 nascido na ilha de Santa Lúcia. O parágrafo inicial argumenta que é a periferia das civilizações durante seus ocasos o local de onde surge a poesia que mantém a língua coesa: “... a periferia não é onde o mundo acaba – é lá precisamente onde ele se desenreda”.

Brodsky, nascido em São Petersburgo, ele mesmo Nobel de 1987, apesar de escrever poesia em russo, produziu seus ensaiosp em inglês, sua língua adotada desde que, dissidente da União Soviética, passou nos anos 70 a viver nos Estados Unidos. De seu aprendizado poético da língua inglesa, de estranhamento e admiração, ele extrai uma certeza. Ter nascido ali, onde “o sol, cansado de império, declina” (versos de Walcott), oferece ao poeta de Santa Lúcia um manancial inalcançável para alguém nascido em, digamos, Nova York ou Londres, a capital do Império. Aos versos, então, de Walcott, selecionados pelo russo e traduzidos pela Estante a partir da versão do livro:

“Eu sou só um negro ruivo que amo o mar,

Eu tive uma senhora educação colonial,

Eu tenho holandês, negro e inglês em mim,

e tanto não sou ninguém, ou sou uma nação.”

Diz Brodsky: “A dignidade e o intenso vigor retórico desta afirmação [a do último verso] são diretamente proporcionais tanto à região em cujo nome fala quanto à infinitude oceânica que a cerca. Sempre que ouvimos uma voz assim, sabemos com certeza: o mundo se revela”. E o russo vai além, afirma que a crítica dos dois lados do Atlântico – novamente, Nova York e Londres – engana-se ao classificá-lo como “poeta antilhano” ou “poeta negro do Caribe”: “A covardia tanto mental quando espiritual que se revela nessas tentativas de transformar este homem num escritor regional se explica ainda pela má vontade dos críticos em admitir que o grande poeta da língua inglesa é negro”.

Brodsky destaca a sensibilidade do ouvido de Walcott para a língua inglesa e sua “força descritiva” “verdadeiramente épica”, que o faz ter mais em comum com o Homero da Ilíada e da Odisseia do que com outros poetas de língua inglesa.

“Ah, admirável terceiro mundo!” é outro verso destacado pelo russo, uma alusão ao “Ah, admirável mundo novo!” de Shakespeare que Aldous Huxley reclamou para o título de seu livro mais conhecido. Uma simples exclamação que é todo um comentário sobre o “legado colonial” que ainda pesa sobre grande parte da América (escrevo América, não Estados Unidos, que são coisas distintas).

II

Se Walcott, da ilha de Santa Lúcia, ecoa Homero, outro poeta americano, desta vez o peruano Óscar Limache (1958), faz eco a outros gregos em seu livro Viagem à língua do porco-espinho, prêmio Copé de Oro de poesia de 1988. Na seção Três poetas gregos, o poeta de Lima absorve quase que na íntegra, com toques limenhos, poemas de Giórgos Seféris (1900-1971), Odysseus Elytis (1911-1986) e Konstantinos Kaváfis (1863-1933), de quem reelabora o famoso poema À espera dos bárbaros.

Para trazer os bárbaros de Kaváfis para o Peru, Limache opera por dentro da própria linguagem poética, a tal “língua do porco-espinho” e, logo após as citações-homenagens aos gregos do século XX, o autor peruano nos oferece o poema Lima Ano Huno, em que explora o trocadilho em espanhol entre o povo huno e o primeiro ano de uma nova etapa histórica. A tradução vai a seguir:

LIMA ANO HUNO

um ano

mais ou menos / não há lugar

para recolher uma série de feitos

e confrontá-los / mas realmente

em tempos como os que estamos passando

nada era estranho

o comum era a normalidade / dito de outra maneira

às vezes me produz uma notável desolação

ter nascido

na pré-história / os anos moços passaram

e agora saber que se deve ser

e que se deve estar / há um momento em que minha civilização

clama por minha barbárie

exige de uma vez que os bárbaros

esses analfabetos inocentes sensíveis

esmaguem

com seu ódio criador

os civilizados sapientes e assassinos

mas exige também

e isso é o grave

que em meu próprio claustro

em meu próprio território

em minha defendida solidão

a violência oprima

com ódio igualmente criador

os infinitos pudores e credos

o delírio do real

faça estilhaços

das opulentas dúvidas do intelecto

o ultimato da pobre alegria

derrube para sempre

minhas sólidas barricadas desgostosas / para tocar o sonho

pra tocar a vida

com toda sua enorme humanidade / como hunos

com cabeças raspadas e tranças solitárias

olhando o horizonte

com odores nauseabundos

visitando os amigos

e os inimigos

sentados em montarias

sobre a realidade

realidade medida

calculada sonhada admirada

toda a vida

sobre patas curtas e hirsutas

avançaram com maestria

donos de seus meios

Viagem à língua do porco-espinho é repleto de diálogos e ecos. Em primeiro plano, é uma resposta americana ao livro As Cidades Invisíveis (1972), clássico contemporâne do italiano Italo Calvino, em que Marco Polo, em suas viagens para a China, descreve as cidades do império para o governante que, imerso nas questões administrativas da nação, acaba sem tempo de conhecê-las.

Limache, por sua vez, faz um movimento contrário: traz para Lima todas as cidades do mundo: as reais, as históricas, as mitológicas e inventadas. Um exemplo dessa operação é o poema Canaã, em que se dança a marinera, dança típica peruanam, no casamento de Jesus e Maria Madalena. O livro é dividido em duas partes: As Cidades Invisíveis, a maior parte do livro, com a reunião dessas cidades,  e A Louca Escorpião e outras histórias de Lima, com poemas que giram em torno da capital peruana. É a parte em que está a seção Três poetas gregos. 

Estante
Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari. A identidade dos argentinos. In: Sobre os sonhos e outros diálogos. São Paulo: Hedra, 2009.

Joseph Brodsky. O som da maré. In: Menos que um: Ensaios. Tradução Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 (1ª edição 1986).

Óscar Limache. Viaje a la lengua del puercospín. Lima-Peru / Santiago de Chile: Amotape Libros / Andesgraund Ediciones, 5ª edição, 2016 (1ª edição 1989).

Uma seleção de poemas da primeira parte de Viagem à língua do porco-espinho foi publicada em Santos de forma artesanal pela editora Sereia Ca(n)tadora sob o título Espinhos do porco-espinho, com traduções realizadas por este colunista.

Mais sobre a ponte literária de traduções entre Santos e Lima em:
http://alessandroatanes8.wixsite.com/esquinasdomundo/traducoes

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 13 mar 2020 14:01
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E o mundo não vai acabar

… ainda não havia nada, mas já existiam as pessoas
Mito cosmogônico dos Yawanawa, povo da Amazônia



Há alguns anos, em maio de 2016, logo após as ressacas terem derrubado centenas de metros de muretas (IOIIOIIOIIOIIOI) na Ponta da Praia e outros locais da cidade, escrevi o texto Os fins do mundo de Santos – catálogo em cinco partes, no qual previa – previa não, porque a situação é muito óbvia – que, por mais que fossem reconstruídas, esse novo símbolo da cidade iria cair novamente sob as forças do mar.

Enumerava uma série de fins, alguns simbólicos, pelos quais a cidade já havia passado: a ressaca anterior de 2005, o desmoronamento na Serra, o desmanche dos casarões da cidade e dos universos de seus objetos e memórias pessoais, o colégio Docas (onde estudei) em ruínas, o fim dos clubes e dos prédios das universidades. Além da ressaca, a cidade havia acabado de sofrer em janeiro vazamento de produtos químicos na margem esquerda do porto, que matou gente, e, no ano anterior, as explosões de tanques de combustível na entrada da cidade, episódios que ecoam os incêndios em tanques da Ilha Barnabé em 1991 e 1998, o descaso trágico de Vila Socó em 1984 ou mesmo o desmoronamento do Monte Serrat em 1928.

Enfim, estava aí o catálogo que fiz à época, recheado ainda de referências da ficção sobre a destruição da cidade.


I

Aqui na Vila Mathias, a água que entrou em casa e o barro que desceu a encosta do Monte Serrat por causa das chuvas desse início de março não ultrapassaram a altura do pé da estante, mas as mortes e a destruição fizeram que eu voltasse ao texto de 2016, no qual noto hoje um desejo quase milenarista de recomeço a partir do zero. Talvez não fosse um desejo, parece-me mais provável que esse tom tenha sido resultado da incapacidade de perceber qualquer alternativa à repetição de tragédias.

Então lembrei de uma declaração do filósofo esloveno Slavoj Žižek, não sei se lida em um texto ou feita em uma entrevista, na qual ele se pergunta por quais motivos é mais fácil imaginarmos o fim do mundo (e Hollywood e a ficção fantásticas estão aí para nos contar vários fins do mundo) do que imaginarmos o fim da atual forma de organização econômica e social que tem aproximado o planeta de seu esgotamento.

É aí que entra a leitura da semana, Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins, livro de 2014 escrito a quatro mãos pela professora de filosifia Déborah Danowsky e o etnólogo Eduardo Viveiros de Castro onde citam o xamã Yanomami Davi Kopenawa: “Os Brancos não temem, como nós, ser esmagados pela queda do céu. Mas um dia eles terão medo, talvez quanto nós!”.

Essa repetição de ocorrências (naturais, ampliadas pela humanidade, ou simplesmente causadas por nós) talvez já esteja nos fazendo sentir o medo de sermos esmagados pela queda do céu.

No finzinho do livro, desdobrando o mito Yawanawa, de que nada havia antes além das pessoas, a dupla de autores do livro ensina que não devemos nos limitar a falar do fim, ou, arrisco, que o fim deve ficar para trás:

“Falar no fim do mundo é falar na necessidade de imaginar, antes que um novo mundo em lugar deste nosso mundo presente, um novo povo; o povo que falta. Um povo que creia no mundo que ele deverá criar com o que de mundo que nós deixamos a ele.”

O medo a perder agora é o de pensar e imaginar uma nova forma de a humanidade estar no mundo. É o que nos cobram os que morreram.

Estante
Déborah Danowski & Eduardo Viveiros de Castro. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Rio de Janeiro: Florianópolis: Editora Cultura e Barbárie, 2014.

Alessandro atanes. Os fins do mundo de Santos: catálogo em cinco parte, 20 de maio de 2016. In: https://medium.com/@Atanes/os-fins-do-mundo-de-santos-cat%C3%A1logo-em-cinco-partes-832bb37c5bfe.

 

 

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  • Publicado por: Alessandro Atanes
  • Postado em: sexta-feira, 06 mar 2020 16:08Atualizado em: sexta-feira, 06 mar 2020 16:15
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Quinta de cinzas

As civilizações são finitas, e por isso sempre chega um momento na vida de todas elas em que o centro começa a se desagregar. O que as impede de se desintegrar não são suas legiões, mas a língua.

Joseph Brodsky

I

Libertada e vencida, essa é a Itália que surge em A pele (1949), de Curzio Malaparte (1898-1957), livro em que acompanhamos a chegada do exército dos Estados Unidos em Nápoles em 1º de outubro de 1943 e sua marcha em direção a Roma, parte da ofensiva dos Aliados que culminaria com a derrota dos nazistas dois anos depois.

Malaparte é um oficial do exército italiano veterano da Primeira Guerra (1914-1917), quando ainda adolescente, combateu alemães e por eles foi ferido com um lança-chamas. Conta Milan Kundera em A pele: um arquirromance, que, mais tarde, nos anos 30, após ingressar no partido fascista italiano, ele acaba preso “por atividades antifascistas”. Jornalista e intelectual, seu lugar era entre “artistas e escritores”. Devido à experiência militar, em 1940 é absolvido, reconvocado e enviado para o front russo, de onde escreve artigos considerados antialemães e antifascistas. Em poucos meses é novamente preso.

Esse duplo sentimento – livre e vencido, militar e antifascista – Malaparte nos mostra logo no início de A pele, quando o exército italiano é incorporado pelos Aliados:

“Caminhando ao lado do Coronel Hamilton, eu sentia-me ao mesmo tempo maravilhosamente ridículo no meu uniforme inglês. Os uniformes do Corpo Italiano da Libertação eram velhos uniformes ingleses cor de cáqui, cedidos pelo comando Britânico ao Marechal Badoglio, e novamente tingidos, talvez para tentar esconder as manchas e os buracos das balas, de verde escuro, cor de lagarto. Eram, de fato, fardas tiradas aos soldados britânicos tombados em El Alamein e em Tobruk. No meu casaco viam-se os buracos de três balas de metralhadora. [...] O nosso amor-próprio de soldados vencidos estava salvo: doravante combateríamos ao lado dos Aliados, para ganhar juntamente com eles a guerra deles depois de termos perdido a nossa, e por isso era natural que fôssemos vestidos com as fardas dos soldados abatidos por nós”.

Em seu ensaio, Kundera pondera que Malaparte é uma das primeiras vozes a perceber a “nova Europa”, vencida primeiramente pela “loucura de seu próprio Mal encarnado na Alemanha nazista” e, em seguida, “libertada e ocupada” pelas potências emergentes que tomam seu lugar, Estados Unidos e União Soviética: “a Europa que ontem ainda (tão naturalmente, tão inocentemente) considerava sua própria história, sua cultura, como um modelo para o mundo inteiro, percebeu sua pequenez”.

II
A pele é lido como uma sucessão de cenas cruéis, absurdas e grotescas que ocorrem durante a marcha em direção a Roma, bem como nas digressões e flashbacks do narrador. O mesmo ocorre em sua obra anterior, Kaputt, publicado em 1944, antes mesmo do fim do conflito, no qual narra episódios dos anos iniciais da guerra ocorridos nos territórios ocupados pela Alemanha testemunhados por ele devido à sua posição como oficial italiano. Mas engana-se quem espera de um ou de outro um livro-reportagem. Kundera argumenta que a “intenção estética” das duas obras é tão vasta – “forte”, “evidente” – que seu aspecto de testemunho fica em segundo plano.

Kundera traça um paralelo entre o italiano e José Lezama Lima (1910-1976). Assim como o cubano, Malaparte amava – e publicava traduções – os poetas e artistas surrealistas. E, ainda que os dois tenham em suas obras evitado a macaqueação, a influência do movimento os fez oferecer às Letras novas formas para o romance, já que não era possível voltar ao realismo naturalista do século XIX. Malaparte chegaria ao arquirromance, enquanto Lezama Lima, anos mais tarde, seria o pensador e criador do “real maravilhoso”, como lemos em obras como Paradiso, de 1966, uma das obras que iria alimentar o boom da literatura latino-americana e a idea de realismo fantástico. Na edição do livro que preparou para e editora espanhola Catedra, a irmã do autor, Eloísa Lezama Lima, conta algo sobre a transmutação de episódios familiares em literatura em Paradiso que, suspeito, cabe também a Malaparte: “a transformação de fatos históricos em mito”.

A matéria-prima de Kaputt e A Pele, afirma Kundera, é mais a “atmosfera” (o trecho acima sobre a reutilização das fardas é um bom exemplo) do que o “encadeamento casual das ações”. Kundera lembra de uma das cenas mais marcantes de Kaputt, quando, ao fugirem de um incêndio florestal ateado por forças soviéticas durante uma batalha no norte da Finlândia, centenas de cavalos buscam refúgio em um lago:

“Durante a noite desceu o vento do Norte. (O vento do Norte desce do mar de Murmansk, como um anjo, ululando, e a terra morre subitamente). O frio tornou-se tremendo. De súbito, com o seu característico som vibrante de vidro percutido, a água congelou-se. O mar, os lagos, os rios congelam-se de improviso, por causa do rompimento, que ocorre de um momento para o outro, do equilíbrio térmico. Até a onda marinha para no meio o ar, torna-se uma onda curva de gelo suspensa no vácuo.

No dia seguinte, quando as primeiras patrulhas de sissit, com os cabelos chamuscados, a cara negra de fumaça, caminhando cautelosamente sobre a cinza ainda quente através do bosque carbonizado, chegaram à margem do lago, horrível e maravilhoso espetáculo se lhes deparou. O lago era como uma imensa laje de mármore branco, em cima da qual pousavam centenas de cabeças de cavalos. Pareciam decepadas pelo corte seguro de um cutelo. Só as cabeças emergiam da crosta de gelo. Todas as cabeças estavam voltadas para a margem. Nos olhos arregalados ardia ainda a chama branca do terror”.

Talvez a epígrafe de hoje, do poeta Joseph Brodsky (1940-1996), Nobel de Literatura de 1986, explique a opção de Malaparte pela elaboração literária. Não se é repórter do fim de uma civilização apenas com fatos.

Estante
Curzio Malaparte. Kaputt. Tradução Mário e Celestino da Silva. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1963 (1ª edição 1944).

Curzio Malaparte. A Pele. Tradução Alexandre O’Neill. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1964 (1ª edição 1949).

Milan Kundera. A pele: um arquirromance. In: Um encontro: Ensaios. Tradução Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2013 (1ª edição 2009).

Joseph Brodsky. O som da maré. In: Menos que um: Ensaios. Tradução Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 (1ª edição 1986).

Três observações
1) São belíssimos os desenhos de Eugênio Hirsch para as capas das edições da Civilização Brasileira dos livros de Malaparte;



2) Os dois livros estão fora de catálogo e são achados apenas em sebo, mas quem quiser acompanhar o clima das duas obras pode contar com duas adaptações: Kaputt (2014), em quadrinhos, adaptado por Eloar Guazelli, e A Pele (1981), adaptação para o cinema de Liliana Cavani, com Marcello Mastroianni e Burt Lancaster. O filme está disponível na Video Paradiso, aqui de Santos;

3) Voltaremos a ouvir O som da maré de Brodsky na próxima semana.

 

 

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Sobre
Blog de crítica literária. Alessandro Atanes é autor do livro "Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos", também traduz, compõe e toca guitarra. De profissão jornalista, tem mestrado em história social (USP, 2008) e é servidor público municipal de Cubatão desde 1999.