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A estréia de Catarina Ganzelli nos Blogs do Santa: "Os laços criados pelo cloro"

Foi-me sugerido o tema natação o que não é nenhuma surpresa para quem passou a vida inteira dentro desse esporte que tenho como paixão. Mas nesse momento eu prefiro não mencionar o lado o qual todos conhecem e estão acostumados, que seria escrever sobre os treinos, as competições, a pressão, a dor e a glória de ser um atleta. Claro que nossa vida é composta em grande parte por esses elementos. Só que hoje eu gostaria de falar de algo realmente especial para um atleta que é o significado de família.

Durante os meus últimos anos de natação posso garantir que grande parte dos atletas que integraram a equipe na qual nadava, em sua maioria, não eram nascidos na cidade em que treinávamos, assim como eu. Essa busca pela excelência vai muito além das águas para os nadadores, o que ocorre também em outras modalidades. Cada um busca um ambiente, uma cidade, uma estrutura e uma rotina diária que se encaixe consigo para que assim alcance sua própria excelência.

Essa busca é a causa de tantos jovens saírem cedo do aconchego de sua família para buscar um lugar ideal para se fundir ao seu esporte. Claro que nem todos precisam disso, alguns tem a sorte de nascerem no palco onde construirão sua história, ainda assim, é minoria. Inclusive, essa é uma das primeiras provações encaradas pelos que se jogam nessa busca: resistir a uma tormenta de pressões e exigências longe do colo de quem sempre te confortou. Muitos desistem em menos de um ano.

Tive a oportunidade de morar em uma república de atletas da prefeitura durante três anos. Morávamos em seis meninas em um apartamento de dois quartos e ainda havia mais três repúblicas na época. Durante três anos morei com nove pessoas, só para vocês terem ideia da rotatividade e do número de desistências.

Falo sem sombra de dúvidas que foram os anos em que recebi as lições mais úteis da minha vida. Imaginem; de repente ir morar em um local onde você desconhece tudo. Não só os aposentos, mas também a história de cada pessoa que está dividindo o seu dia-a-dia, suas manias e costumes. Cada um ali tem uma história, uma educação, um passado, uma criação, uma personalidade diferente. Eu, filha única, que nunca havia dividido uma sala, agora dividia até o banheiro. Falo isso porque, imagine morar em seis meninas com horários exatamente iguais e somente um banheiro para usar? Ou seja, nem ali estávamos sozinhas.

O mais curioso disso tudo é que éramos todas adversárias, o que é comum no meio. Às vezes rolavam alguns atritos internos... Agora, mexa com alguma na rua, para você ver se as outras não voam em cima... Vivíamos na certeza que independente do clima do dia a dia, sempre poderíamos contar uns com outros, uma verdade que se estendia para as outras repúblicas nas quais combinávamos horários, caronas, idas ao mercado, passeios na praia, almoços e jantares.

Com o passar dos anos, mesmo depois de muitos conquistarem seu próprio espaço, como foi meu caso, essa fraternidade continua. Como caminho natural, muitos conseguiram ir morar sozinhos depois de um tempo. Mas quem disse que a república sai de você? Ainda sim era um local de ponto de encontro, em que os que saíram mantinham uma frequência de visitas.

O mais bonito disso tudo é o significado de família que se cria nessas condições. Com os parentes de sangue distantes e em uma cidade onde não se conhecia ninguém, é natural essa aproximação e confiança naqueles que se encontram nas exatas mesmas condições que você. Foi o que aconteceu comigo e com muitos outros "irmãos". Essa fraternidade criada naquela época, hoje atravessa barreiras e se mantém firme. Pois mesmo os que hoje pararam de nadar e, como a maioria dos atletas, desempenham com sucesso sua função no mercado de trabalho, ainda atendem sem hesitar a qualquer chamado daqueles velhos amigos que além de encararem diversos treinos e desafios ao seu lado, também passaram noites em claro em prontos socorros quando seus pais não estavam por perto.

Eu construí uma família com a natação, pela qual sou muito grata e tenho orgulho de dizer que os levo comigo para onde for e fico encantada em poder vibrar com cada uma de suas conquistas, agora fora das piscinas. Esse tema me foi inspirado pelo momento que passei no último final de semana, onde um de meus “irmãos” perdeu seu pai. Nesse momento tão delicado, nos vimos novamente reunidos, os antigos moradores das repúblicas, colegas de equipe, de mercado, de médico, de farmácia, de almoço, de shopping, de feira.

Aqueles com quem poderei contar sempre, nos dias bons e ruins independente do tempo e da distância. Um encontro que veio de repente para provar o quão forte é nossa união, pois da meia dúzia presentes naquela ocasião só dois seguem nadando, os outros se deslocaram até de outras cidades para dar aquele abraço confortante que aquele irmão precisava no momento. Sem contar os que se fizeram presentes virtualmente, que mesmo não conseguindo vir de última hora, já tem data marcada para uma visita.

A mim só resta ser grata por esses ombros largos e confortantes que Deus colocou em nosso caminho, pois sei que sempre que for preciso, independente da perda de contato ou distância, eles estarão sempre de prontidão. Além de uma contribuição esse post também é uma singela homenagem à família Borges.

 

 

  • Publicado por: Catarina Ganzelli
  • Postado em: quarta-feira, 28 jun 2017 10:18Atualizado em: quarta-feira, 28 jun 2017 10:19

Comentários (2)

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francisco mesquita

• 29/06/2017 08:47

verdade
O q a Catarina escreveu e a mais pura Verdade, eu sou paratleta de natacao e tenho um filho (unico) q e ciclista, e em meio a treinos, competicoes, sempre dou um jeito de viajar c ele em suas competicoes pra ficar mais perto. E a vida.

Pedro Ganzeli

• 28/06/2017 11:46

Guerreira
VAI CATARINA!!!

     
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