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Limparam o Salão

O título remete ao ato pouco ortodoxo, mas ao invés de dedos no nariz, as palavras refletem o resultado dos dedos na ferida. Aos fatos: a Chevrolet anunciou que não estará presente no Salão do automóvel de São Paulo em 2020. A informação surpreendeu porque normalmente a marca é dona dos mais suntuosos estandes nos eventos os quais participa, apresenta grandes novidades para o mercado e recebe muito bem a mídia especializada. Só para dar uma noção, em 2014 a Chevrolet anunciou no Salão de São Paulo (ainda no Anhembi) o patrocínio à Seleção Brasileira, além de oferecer uma apresentação estilo Broadway, com nomes como Otaviano Costa, Rodrigo Faro e Thayde no palco. Já em 2018 a marca foi responsável pela abertura do Salão e em sua apresentação mostrou o Bolt, carro elétrico.

O que não surpreende é o anúncio de mais uma ausência no salão paulistano. A Chevrolet é a 12ª marca a não ir ao evento. Se junta do lado de fora a BMW, Citroën, JAC, Jaguar, Land Rover, Lexus, Mini, Peugeot, Toyota, Hyundai Motor Brasil e Volvo. E na semana passada a Kia deu fortes indícios de que também poderá não estar presente. Resta a dúvida se haverá salão...

O mastodôntico motivo tem nome: dinheiro. Quando o Salão do Automóvel mudou-se para o São Paulo Expo levou consigo uma majoração nos custos. Em 2016, no primeiro ano do evento na nova casa, o metro quadrado de um estande, com valor negociado ao extremo, girava em torno de R$ 280,00. Só que um estande decente tem que ter, no mínimo, 400 m², ou seja, R$ 112 mil só para ter direito a um espaço no grande galpão (e há marcas com estandes muito maiores).

A partir daí vêm montagem do estande, iluminação, hospitality center (com sofás, poltronas, mesas, wi fi, ar-condicionado, comidas, bebidas etc), contratação de seguranças, buffet para a coletiva de Imprensa (muito café), agência de modelos para colocar aquelas meninas horrorosas ao lado dos carros, transporte dos carros que ficarão expostos, palcos especiais para carros que vão chamar mais a atenção etc.

Custos que aumentam quando a alta cúpula da montadora não reside em São Paulo. Então entram avião, hotel, transfer, subsídio para estacionamento dos convidados e muitos pormenores. Ah, para a apresentação algumas marcas contratam artistas e esportistas de ponta. Inclua aí cachê, transporte, alimentação e muitíssimo mais.

Total da empreitada: R$ 1,5 milhão a R$ 2 milhões para empresas que economizam o máximo possível. Uma Chevrolet da vida investe em torno de R$ 5 milhões. Conta-se à boca muito pequena que houve um Salão em que uma famosa marca alemã gastou R$ 15 milhões para os 10 dias de evento.

De acordo com a nota da Chevrolet, a marca se baseia na experiência do cliente e a marca vem se mostrando cada vez mais digital, tanto que 32% das vendas de varejo iniciam-se no ambiente digital. São 93% da rede de concessionários integrada em uma plataforma única na internet e isso gerou mais de R$ 3 bilhões em vendas em 2019.

Aí lembramos que a Chevrolet tem o carro mais vendido do Brasil nos últimos anos, o Onix, que ganhou uma nova geração em 2019. Não bastasse, promete para 2020 a nova geração do Tracker e reestilizações para S10 e Trailblazer. A Chevrolet investia tanto no salão paulistano que gostava de colocar seu estande logo na entrada. Sinal dos tempos...

No caso da Kia Motors a situação é outra. Os sul-coreanos destinam uma verba para publicidade no Brasil e não dão nem um centavo a mais. Se a Kia do Brasil quiser ir ao Salão, que pegue a verba de publicidade e invista. A alta cúpula da marca deve decidir por uma melhor distribuição da verba publicitária.

Seria de se imaginar que todo o investimento em um Salão do Automóvel tem retorno nas vendas dos carros lá expostos, mas não é bem o que acontece. Das pessoas que visitam os salões, podemos dizer sem pesquisa nem medo de errar que 95% estão lá para ver os carros que não são vistos todos os dias nas ruas, além dos bólidos que rasgam autódromos mundo afora. Vamos e venhamos: quem vai até o São Paulo Expo, para um estacionamento caro (é caro sim), um ingresso caro, comida, bebida etc para ver o Onix, se no caminho para o evento as ruas estavam cheias deles? Ou seja, as vendas não pagam o investimento.

É uma bola cantada há bastante tempo por marcas que já abandonaram o salão em outras ocasiões. Pode ser uma tendência se alguma atitude não for tomada. De qualquer modo, parece que um dia só de coletivas será suficiente em 2020.

Se houver coletivas...

 

 

  • Publicado por: Paulo Rogério
  • Postado em: terça-feira, 04 fev 2020 18:39Atualizado em: terça-feira, 04 fev 2020 19:46

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O mundo automotivo dentro e fora da estrada! Pelo jornalista Paulo Rogério, especializado em automobilismo.